Terça-feira, 17 de Setembro de 2019

Falar o que?

Crônicas de Domingo - 04 de Março de 2018


03/03/2018 às 00:00

Semana complicada e pensei em falar do trânsito. Desde o retorno das aulas, das creches às universidades, nada mais aborrecido para começar o dia que os engarrafamentos nas principais vias da cidade. E a gente, principalmente logo pela manhã, não dispõem de muitas rotas alternativas, principalmente para quem se desloca das zonas norte e leste às principais áreas empresariais de Manaus. E já não se vê qualquer iniciativa significativa ao sistema viário faz tempo, desde… desde os viadutos que foram começados na prefeitura do Serafim e terminados na prefeitura do Amazonino. É isso mesmo?

Pensei em falar, mas desisti. Ficou aquele sentimento de “enxugar gelo”. Falar para não resolver nada. A mobilidade manauara anda comprometida e aqueles que são incumbidos de gerir o sistema fazem cara de paisagem, não emitem nota, não anunciam novos projetos. Parece que é melhor se fingir de morto pra passar melhor. Eles devem pensar: “vamos deixar quieto, povo já está acostumado, não tem jeito pra resolver mesmo”. Se eles, que são eles, e vivem disso, pensam assim, quem sou eu pra ficar querendo levantar o assunto?

Pensei também nesse cemitério de ruínas históricas em que se transformou o centro da cidade. Prédios que narram a nossa trajetória, decadentes, quase desmoronando, como a Santa Casa e a Boothline. Isso sem falar da enorme quantidade de casas de interesse histórico abandonadas, invadidas. Pra não citar a obra que foi feita há três, quatro anos na Eduardo Ribeiro, que também já parece uma escavação arqueológica abandonada, de tão sujas que estão as calçadas. Os acostamentos dos veículos todos afundando, com recalque no piso.

Pensei e acabei desistindo mais rápido ainda. A Santa Casa tem uma ordem judicial para providências emergenciais e, mesmo com um magistrado federal sentenciando, a questão continua insolúvel. Fiquei imaginando na quantidade de desculpas bem colocadas que seriam pronunciadas: “patrimônio privado não pode receber recurso público, os proprietários que cuidem do que lhes pertence”, “absurdo, com toda essa crise na saúde, ficar falando de imóveis históricos, isso é falta do que fazer, pois temos prioridades”… Algumas vezes eu prefiro ter paz a ter razão. Já fico sem vontade de argumentar as mesmas coisas de décadas atrás e escutar as mesmas justificativas e me calo. Mas confesso que fica um gosto bem amargo na boca.

Resolvi então falar, pela enésima vez, do batalhão que invade a cidade com carrinhos de mão e de supermercado, vendendo frutas e verduras e que transformam o centro em uma verdadeira feira livre, um mercado quase medieval. E se misturam à população de rua, de pretensos “hippies” e de pedintes nas calçadas da cidade, especialmente na área central. Sempre achei que esse povo merece uma abordagem e uma solução cidadã, que seja boa para a cidade e pra eles. Mas ouvi os ecos das defesas inflamadas de “deixa os caras trabalharem”, “melhor fazer isso que roubar”, “burguês alienado”… e lembrei também que é ano de eleição e a festa do “tudo-pode”, em nome do voto.

Concluí então que é melhor não falar nada, até pra não ser acusado de pessimista e sabotador. A solução, não sei bem se a melhor, é aceitar a mordaça sem reclamar. E acreditar, em vão, no discurso de que o voto é a nossa melhor arma. Será? Até quando? #Pensa


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