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Artigos de Domingo - 12 de Fevereiro de 2017 12/02/2017 às 00:00 - Atualizado em 19/02/2017 às 00:50
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Desci mais cedo de casa que o normal, para fazer um exame. Como o laboratório fica a duas quadras do prédio onde moro, decidi ir a pé - não fazia o menor sentido pegar um carro. Antes das 7 h da manhã, caminhando pelo centro, uma moto para ao meu lado. E a reação foi instantânea: saí quase correndo, sem sequer esperar o motoqueiro perguntar alguma coisa. Coração batendo acelerado, pernas tremendo: poderia ser um assalto. Ufa, escapei!

Já longe e fora do alcance da ameaça em duas rodas, vejo uma pessoa conversando com os dois ocupantes da moto e apontando para a rua, como se estivesse dando uma orientação. Não era assalto, era só um pedido de informação. Mas eu estava amedrontado, contaminado pela sensação de insegurança pela qual fomos tomados nos últimos tempos. Afinal, começamos o ano com um massacre no complexo penitenciário, resultando em 56 mortos.

Por algum motivo, a gravidade do fato (sim, é grave) ganhou contornos de ficção, que nos levavam a crer que aquele tipo de barbárie só acontecia aqui. E que estávamos sofrendo arrastões nas vias públicas a cada 15 minutos, em notícias espalhadas sistematicamente nas redes sociais, e através dos aplicativos de mensagem. Ficamos em pânico, por algum tempo, até perceber que aquele terror não era real, mas promovido para a conveniência de alguém. Com o tempo, acabamos percebendo o quão nacional é essa crise.

Na prisão de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, as rebeliões chegaram a durar oito dias initerruptos, sem que a polícia entrasse no complexo. A cidade teve ônibus incendiados por ordem das facções e ficou sem transporte coletivo por quatro dias. As escolas fecharam. Algo semelhante ao que aconteceu em São Luiz, quando da rebelião no presídio de Pedrinhas, em 2016. Lá, a violência chegou às ruas.

E pra provar que o sistema penitenciário não deve ser a única preocupação, estamos assistindo, atônitos e impotentes, ao que acontece nas ruas das cidades do Espírito Santo. Belém registrou 27 homicídios em um dos últimos finais de semana de janeiro. Sim, existe uma crise nacional, um descontrole assustador, que está muito longe de ser solucionado com medidas de ocasião. O Amazonas, sozinho, não solucionará sua crise prisional. Ela passa pela briga de facções criminosas, que é nacional, assim como pelas fronteiras internacionais.

De qualquer forma, permanecemos em pânico, nos sentindo inseguros. Fomos contaminados pela onda que espalhou o terror virtual. Alguém deve estar ganhando com isso – e não somos nós! Mas enquanto nos ocupamos das queixas dos problemas “virtuais”, as questões reais aguardam soluções. Estudos da SeplanCTI, divulgados durante a semana, pelo Centro da Indústria, mostram que a Zona Franca de Manaus repassou à União, em 10 anos, R$ 100 bilhões em impostos e tributos. No mesmo período, apenas R$ 24,5 bilhões foram aplicados na região. Ou seja, de 100% das riquezas geradas, somente 24,5% ficou por aqui. E a Zona Franca completa 50 anos dia 28 de fevereiro. Tem alguém pensando no assunto? Alguma autoridade a postos, capaz de um discurso que ultrapasse a “garantia” do modelo? Já está na hora! Devemos ter medo, sim, mas de ficarmos ainda mais pobres! A pobreza leva à violência. #Pensa