Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Fogueteiros

Artigo de Domingo - 31 de Julho de 2016


01/08/2016 às 00:00

Num desses fins de tarde manauaras, de meio de semana, quando o trânsito parece sofrer de transtorno bipolar, cruzei o Boulevard e dei de cara com aquela feira itinerante que acontece na Belém. Desnecessário dizer da confusão que estava a rotatória que fica em frente. Sei que a iniciativa tem mais de 40 anos, já é tradicional, etc e tal. Mas como cidadão me senti no direito de questionar. O tempo e a tradição não conferem o caráter de inquestionável a nada.

Especialmente àquela da Belém, com pouquíssimas barracas e com os compradores tendo que transitar pelo meio da rua. Antigamente, todo aquele trecho da via era interditado, o que se tornou impossível, pela necessidade de escoamento do fluxo de carros. Quando aquelas feiras, a da Belém e as demais, foram projetadas, Manaus era outra cidade. Mas ela cresceu, ganhou novas rotinas, e talvez precisemos colocar na balança tudo, para medir a necessidade da feira itinerante versus o trânsito, que já é bastante complicado.

Não tenho uma opinião formada, nem informações suficientes sobre o número de feirantes, volume de vendas, existência ou não de outros pontos de venda de produtos similares no perímetro em que elas se localizam. Mas creio que a situação precisa ser repensada, pelo menos para encontrar locais mais adequados, se as feiras forem assim tão imprescindíveis. Como cidadão, quero exercer meu direito de discutir aquilo que afeta a cidade. E estou aberto a outras opiniões.

Tirei uma foto e postei nas redes sociais, perguntando se realmente havia necessidade daquilo. Hoje, as redes sociais se constituem em espécies de fórum para os mais variados debates. Infelizmente, a reação não foi a que eu pretendia ter. Ao invés de opiniões sobre a validade ou não da feira, naquele dia, horário e formato, meu post acabou se constituindo numa válvula de escape para palanque eleitoral, onde se falava de tudo, menos do propósito da publicação. A situação foi tão absurda, que fiz uma coisa que raramente faço: deletei o post.

Fiquei depois pensando o quanto estamos mesmo desacostumados a discutir a cidade, de maneira cidadã. E sempre queremos arranjar culpados, mesmo que não haja nada de errado. A democracia é um exercício difícil, muitas vezes incômodo. Mas um amigo que acompanhou a publicação me disse, no “inbox”, nas mensagens privadas do facebook, que na verdade existem pessoas pagas para fazer isso. Exatamente, pagas para aproveitar oportunidades e promover, a partir de um determinado problema ou situação, certo candidato.

Unindo uma coisa com a outra, pensando em quem comentou e no vigor e conteúdo do comentário, fazia todo sentido. A lei da propaganda eleitoral estabelece regras à divulgação dos candidatos, mas acho que ela não contava com a astúcia de alguns: pagar pessoas para serem “fogueteiros” nas redes sociais, espalharem boatos, desestabilizarem esse ou aquele candidato ou autoridade.

Dias depois, na academia, um amigo me falou sobre uma pessoa que havia feito uma publicação que tecia comentários sobre a vida íntima e pessoal de pessoas públicas, com detalhes bastante sórdidos. Aquilo era verdade? Ninguém sabia, mas já estava publicado, e provocava burburinho. Tinha a ver com a atuação das pessoas alvo da fofoca, no que diz respeito à sua vida pública? Absolutamente não. Mas o estrago já estava feito. Até quando vamos nos deixar envolver por esse tipo de mazelas? Queremos discutir a cidade, seus problemas e possíveis soluções. Não estamos atrás de salvadores da pátria, “fiéis guardiões da moral e dos bons costumes”, se é que eles existem. Santa hipocrisia! #Pensa


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