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Identidade e Sobrevivência

Crônicas de Domingo - 10 de Março de 2019 09/03/2019 às 00:00 - Atualizado em 09/03/2019 às 17:18
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Revendo fotos antigas, lembrei da época em que morei em São Paulo. Meu endereço era na Rua dos Franceses, na Bela Vista. Vizinho a uma rua chamada Rui Barbosa, um dos corredores culturais da área. Lá, havia um lugar chamado “Luar do Sertão”, que dizia em sua placa “a gente sai do sertão, mas o sertão não sai da gente”.

Vivendo na fronteira do Bexiga, bairro paulistano de tradicional ocupação italiana, ao lado da Avenida Paulista, centro financeiro do País, a placa de resistência da choperia me impressionava. Como era possível se manter fiel às raízes, habitando um lugar repleto de diferentes influências e tão cosmopolita?

Aquilo mexia com o meu complexo de migrante de cidade grande, onde você é sempre uma estatística bipolar: maioria numérica e minoria política. À minha volta, tudo ao mesmo tempo! O bairro de Adoniran Barbosa, o sambista italiano; a festa da Achiropita, que leva milhares de pessoas à Treze de Maio; e os executivos engravatados da Paulista.

Em meio ao caldeirão multicultural, sobreviviam os migrantes nordestinos, amontoados em pensões, sonhando com oportunidades. Saídos literalmente do sertão, sem que o sertão saísse deles. Os traços, o sotaque, até mesmo o jeito de andar. Tudo atestava a procedência daquela gente com uma enorme força de trabalho. Filho de pai nordestino, criado no Acre, tinha e tenho enorme respeito por eles.

Um dia, conversando com um desses migrantes, que trabalhava na padaria da esquina, perguntei como ele conseguia se manter tão arraigado às origens. Ele me respondeu, sem demora, que era instintivo, acontecia sem pensar, como uma forma de se manter vivo: “no dia em que eu deixar de ser eu mesmo, não existirei mais não serei nada, morrerei”.

Nunca esqueci daquela conversa, que virou uma lição. Lá se vão vinte e cinco anos que retornei à Manaus. E aquilo ainda soa diariamente em minha mente, como uma cobrança. Preservar a identidade cultural é condição essencial à sobrevivência.

Refletindo sobre nossa realidade atual, tenho impressão que morremos um pouco a cada dia! #Pensa