Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Insurreições

Artigo de Domingo - 24.04.2016


24/04/2016 às 09:20

Nesse feriado de 21 de Abril, fiquei imaginando a razão de porque celebrarmos o herói da inconfidência mineira como feriado nacional!? E não celebramos tantos outros que, talvez, para nós, sejam tão mais importantes! Somos diferentes e moramos longe. E a história é contada sempre pela ótica de quem domina, de quem é o centro das atenções!

Lembro, quando criança, que meu pai tinha um livro em sua estante que me chamava atenção: algo como “Paraguai: guerra ou genocídio?”. Eu havia estudado há pouco tempo aquele conflito no colégio, ensinado na sala de aula como uma conquista, um ato heroico nacional! E aquilo me deixava curioso.

Comecei perguntando ao meu velho o que era genocídio, que eu não sabia, até ter, perguntador que eu era, um resumo do livro. E entender que a história, mesmo aquela com "h", nem sempre é uma narrativa isenta, uma verdade incontestável! Aprendi aquilo naquele momento!

Você deve estar se perguntando se tenho algo contra Tiradentes, ou contra a Inconfidência Mineira - não, não tenho! Mas na verdade houve outros movimentos revolucionários e emancipacionistas muito mais importantes para nós, daqui norte! A Cabanagem é um bom exemplo!

Ignoramos a dimensão que ela alcançou entre os hoje estados do Amazonas e Pará e a liderança popular que deteve! Eles se rebelaram contra as injustiças sociais e  a crueldade dos governantes, alguns deles que sequer moravam na Região! Mas como somos diferentes e moramos longe, celebramos a data dos outros, a história dos outros, os heróis dos outros! Alguém sabe quem foi João Cabano?

Mas voltemos a Tiradentes e à revolta planejada, e não executada - já que o governo da época descobriu tudo antes do dia marcado para acontecer. Além da independência de Portugal, um dos pilares principais do movimento era a derrubada da alta cobrança de impostos, numa região riquíssima, sustentada pela mineração!

Por mais riqueza que produzissem, a partir do ouro e das pedras preciosas, o quinhão amealhado pelos produtores era mínimo, comparado ao que o colonizador abocanhava com a arrecadação de impostos! Já naquela época a parte do “leão” era injusta, nesse caso um leão português.

O tema é bastante atual, num momento em que a dívida dos estados com a União é discutida no Supremo! A forma de cálculo é contestada judicialmente - o Rio Grande do Sul, por exemplo, sequer consegue  pagar a folha, em razão do tamanho da dívida. Vários estados já entraram na justiça e ganharam, mas a União apela, alegando o desequilíbrio das contas públicas!

O Amazonas é, na Região Norte, quem mais recolhe impostos e quem menos recebe, proporcionalmente, investimentos do governo federal. Caso a nova forma de cálculo seja aprovada - o que é, infelizmente, pouco provável - o Estado deixaria de ser devedor e passaria a ser credor, ou seja, já pagou muito mais imposto do que devia: foi sangrado em suas economias. Nessas horas, um misto atual de Tiradentes com João Cabano e um exército de caboclos guerreiros faria toda a diferença! Somos diferentes e moramos longe...para sermos ouvidos, precisamos nos insurgir. Caso contrário...


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.