Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Interesses

Ônibus executivos são "puxadinho" do sistema de transporte coletivo com prejuízos em série: à mobilidade urbana, ao usuário e ao trabalhador dos micros, que é explorado


08/02/2020 às 12:40

Quinta-feira, 6 de fevereiro, às 7h30, a caminho do trabalho em Manaus, na Djalma Batista, sentido centro-bairro. Estamos no contrafluxo e o trânsito flui, embora com a caixa viária lotada – o que não acontece no sentido bairro-centro, completamente parado.

Meu amigo Antônio, companheiro diário das idas e vindas à empresa, me chama atenção para dois micro-ônibus à nossa frente. Taxista experiente, ele aponta os dois executivos, parte do sistema de transporte público de Manaus, que vão ziguezagueando na pista, apostando corrida, pra ver quem pega o passageiro primeiro, sem o menor compromisso ou responsabilidade com o tráfego. Um deles, o mais afoito, fica fácil de identificar à distância, pela sujeita escura que cobre toda a lataria.

Antônio, que já dirigiu caminhão e ônibus, me fala que provavelmente aqueles dois motoristas sejam empregados dos “donos das placas”; há até empresário que remunera pelo número de passagens vendidas. Aqueles dois condutores são imprudentes e estão errados, sim, mas fazem parte do sistema de precarização de trabalho que vivemos no mundo contemporâneo: sem férias, sem seguro, sem plano de saúde, sem previdência.

Ganham se trabalhar, se não trabalhar não ganham, como entregadores, motoristas por aplicativo, carregadores. O problema é que, no caso específico dos motoras de executivo, as placas são concedidas pelo poder público municipal. Pressupõe-se que cada placa tenha um proprietário. Mas se sabe há muito que tem quem tenha uma infinidade de placas e as explore assim.

Se a gente pensar bem, o transporte executivo só existe para suprir uma deficiência do transporte público: o ônibus é ruim, vamos então criar uma alternativa menos pior e mais cara, para dar impressão que tudo funciona. E alguém aproveita para faturar uma grana, ganhando vantagens ilegais e explorando os outros.

Entra ano e sai ano, décadas se passaram, e ninguém resolve a questão do transporte de massa, que só piora, e a situação dos micros se precariza ainda mais. São daquelas coisas que todo mundo fala, já se está cansado de saber, mas que não se deve abordar de maneira séria, sob pena de sofrer ameaças, ataques e até processos.

No resumo, há um prejuízo à mobilidade urbana, pelo caos provocado na trafegabilidade; há um prejuízo ao usuário do sistema e; há um prejuízo ao trabalhador que é explorado. Há alguém que lucra com isso, não tenha dúvida! E deve ter muito poder de influência, afinal essa situação se arrasta há décadas. Tanta influência que supera os interesses do coletivo dos cidadãos. E isso é só a ponta de um novelo enorme e embaraçado.

Estranho pensar que estamos num ano de eleições municipais, para prefeito e vereadores, e que as pessoas estejam preocupadas em saber quem o candidato tal apoia, de quem ele é aliado, se ele é pela moral e pelos bons costumes, mesmo que da boca pra fora, ou qual a religião do candidato... Mas não vejo preocupação alguma em saber qual a compreensão que sua excelência o candidato tem sobre o problema, que propostas ele apresenta, qual os compromissos que ele traz com a candidatura.

Por isso mesmo não é de se estranhar que em 2018 Manaus tenha tido uma greve que deixou a cidade sem ônibus por seis dias, alguns desses com 100% da frota parada, e que nenhum vereador, à época, tenha se apresentado para intervir no problema. Há interesses e interesses. Pergunto o que nós, os não candidatos, esperamos da próxima eleição. #Pensa


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