Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Liberdade?

Artigos de Domingo - 18 de Setembro de 2016


17/09/2016 às 00:00

No auge da repressão e da censura às expressões artísticas, proporcionadas pelo anos de Golpe Militar no Brasil, surgiu um fenômeno inexplicável: os “Secos & Molhados”. Três jovens que se maquiavam e se vestiam estranhamente, um deles com o dorso totalmente desnudo e usando saia. Aparecia naqueles tempos de falta de liberdade um dos maiores fenômenos musicais dos anos 70, de onde se revelou Ney Matogrosso. Há alguns dias, o designer Ronaldo Fraga, um dos ícones da moda brasileira, publicou uma foto do grupo em sua página pessoal no Facebook, com a seguinte legenda: “Três travestidos amados por homens, mulheres e crianças no Brasil da década de 70. E se fosse hoje, na era político-cristã que o Brasil atravessa?”.

Numa semana em que parecemos afogados pela corrupção que inunda o país, em que não suportamos mais ouvir falar no assunto, nada pode ser mais interessante que uma reflexão sobre nossos costumes. Revirar o passado, mexer nas raízes, quem sabe para fortalecer a árvore?! Ney Matogrosso, com suas pantomimas, suas penas, suas saias, sua maquiagem pesada e sua voz e trejeitos femininos era um grande sucesso. Fazia David Bowie, em sua fase mais andrógina, parecer comportado. Inspirava concursos de imitadores na Buzina do Chacrinha, um dos programas de televisão de maior audiência à época. Tudo isso em meio à restrição de liberdade de expressão imposta pelo Ato Institucional número 5 e todas as demais formas de controle da ditadura militar.

Talvez Dona Solange, da Divisão de Censura e Diversões Públicas do Ministério da Justiça, que liberava tudo à exibição pública (lembra, não havia liberdade de expressão), não visse na atitude dos Secos & Molhados um conteúdo subversor do poder instituído. Mas de certo que havia, já que padrões de comportamentos eram questionados. E de maneira tão especial que todo mundo gostava e aprovava, sem se importar se aquilo era gay ou não. Não me recordo de ninguém se referir ao Ney como “aquele viado”. Muito pelo contrário: sempre foi um artista incensado, onde sua sexualidade nunca foi impedimento ao sucesso. Havia ali um avanço, pela aceitação da diversidade: nem todo mundo é igual.

Passados quarenta e poucos anos, a pergunta do Ronaldo Fraga é bastante oportuna: e se não fosse lá atrás, e se fosse agora? Fico pensando que a história seria totalmente outra. Estamos tão preocupados em provarmos nossa “moralidade” e honestidade, em censurar tudo aquilo que parece “diferente”, que nos tornamos intolerantes, declarando guerra a tudo e a todos, antes mesmo de ouvir as razões do outro. Engraçado é que, quanto mais procuramos provar a nossa honestidade nacional, mais nos afundamos na obviedade da nossa corrupção.

Estranho isso: pensar que nos duros anos de governo militar talvez nos dispuséssemos mais à liberdade, mesmo que ela não fosse uma realidade. E que agora, que dela desfrutamos, arranjamos justificativas, as mais diversas, para cerceá-la. Mesmo que precisemos lançar mão do nome de Deus em vão – e contando, cá entre nós, que a Divindade seja totalmente contra isso, já que ela é, prioritariamente, pelos preceitos cristãos, Amor. Porque foi que nos tornamos tão hipócritas e caretas? #Pensa


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