Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Lideranças


06/04/2016 às 16:14

Conheci o Silvio Barros quando passei no concurso para a extinta Emamtur, a Empresa Amazonense de Turismo, em 1986. Naquela época ele ocupava o cargo de Assessor de Marketing da instituição e eu fui trabalhar diretamente com ele. Tratava-se do meu segundo trabalho de carteira assinada e eu ainda me recordo da tensão do primeiro dia. A despeito da excelente colocação, minha fase de entrevista do concurso havia sido péssima, pior impossível, e justamente com a criatura a quem eu seria subordinado.

Lembro bem da imagem dele – que trinta anos depois não mudou nada. Pesava saber que eu teria como superior hierárquico alguém que desempenhou as funções de Coordenador Logístico da Expedição de Jacques Cousteau à Amazônia, a quem eu devo ter causado uma péssima primeira impressão e que, pra piorar, era extremamente religioso – se você tem 20 anos e é militante estudantil, como eu era, isso pode lhe parecer um problema (mas não é).

Logo logo, naturalmente, fui me adaptando ao ambiente, e me encantando com a equipe. E eu, que cursava Direito e Comunicação, e nada sabia de Turismo, fui apresentado (e em grande estilo) à matéria. Ali fui convencido sobre as possibilidades econômicas da atividade para a Amazônia. Aprendi sobre planejamento estratégico, ações promocionais, qualidade em serviço. Falávamos em ecoturismo, quando o restante do mundo quase que desconhecia o seu significado.

A presença do Sílvio e da equipe fez toda a diferença, para melhor, no que diz respeito ao direcionamento da atividade turística no Estado. Mas como não há unanimidades, lembro também de um vereador da época, que mal sabia falar português direito, que o convocou para um depoimento na Câmara Municipal. O parlamentar queria saber porque o Estado jogava dinheiro fora, pagando pra ele distribuir escama de pirarucu no exterior? Ele foi a plenário, apresentou o trabalho e acabou ganhando os vereadores para a causa. Sílvio era um líder nato e com o tempo passou a ser muito mais que meu chefe, meu amigo.

Com o passar dos anos, ele foi vendo seus avanços resultarem em nada, pela falta de investimento do Estado. Muita coisa era planejada, soluções eram encontradas, mas nada era feito. Assim, sem perspectivas de continuar sendo produtivo aqui, e como já era conhecido nacionalmente pelo seu desempenho, aceitou um convite para o Ministério do Turismo, onde foi secretário, pelas mãos do Caio Luiz de Carvalho, para o que me convidou a ir com ele - não aceitei, um de meus raros arrependimentos. Cheguei a fazer alguns eventos sobre Amazonas e Amazônia com ele, em São Paulo, nos encontramos algumas vezes em Manaus, mas aos poucos perdemos o contato mais efetivo.

Tornei a saber dele em 2004, quando foi eleito prefeito de Maringá, sua cidade natal, cargo para o qual foi reeleito em 2008, com uma diferença de 36 pontos percentuais para o segundo colocado. A última notícia que soube a respeito dele é que estava secretário de planejamento do Paraná e que disputará as próximas eleições municipais em Maringá, onde seu desempenho parece ter sido extraordinário.

Reencontrei-o via Facebook há pouco tempo e percebo que ele anda mais ativo que nunca, em pautas bastante pertinentes e atuais. Lembrei dele muito, pensando sobre as lideranças locais e as próximas eleições. Somos tão carentes de alternativas em quem votar, em gente qualificada, eficaz, e que se disponha a disputar a preferência popular (justamente este último item que reduz nossas possibilidades). Estamos preenchidos de carreiristas, de gente sem idéias, sem conhecimento, que só quer ganhar dinheiro, não importa como. Que troca de discurso e de lado sem o menor princípio – talvez porque não os tenha! Até quando alimentaremos essas pessoas?


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