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Crônicas de Domingo - 25 de Março de 2018 24/03/2018 às 00:00 - Atualizado em 24/03/2018 às 23:27
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Numa semana em que vimos de quase tudo, me chamou atenção um episódio que se deu em Boa Vista, Roraima: brasileiros invadiram um prédio ocupado por imigrantes, expulsam os venezuelanos que estavam abrigados e atearam fogo ao local. Não se tratou do primeiro incêndio criminoso contra os nossos “hermanos”. Há alguns meses, um outro estrangeiro, oriundo da Guiana e conhecido como Jamaica, tocou foco numa casa em que morava uma família venezuelana. Motivo alegado: o roubo de uma bicicleta. Motivo real: a perda de espaço nas ruas.

Boa Vista e Pacaraima são dois barris de pólvora prestes a explodir, devido à questão migratória. A quantidade de venezuelanos atravessando a fronteira aumentou assustadoramente. Estatísticas dão contam que o número saltou de trezentos por dia para oitocentos. Nada nos garante que 10% da população de Boa Vista seja de imigrantes venezuelanos. Esse percentual pode ser imensamente maior. E note-se que o Brasil, até pela diferença de idiomas, não foi o principal destino dos nossos vizinhos. Enquanto, em 2017, recebemos pouco mais de 33 mil, a Colômbia acolheu mais de meio milhão de venezuelanos; o Equador, 288 mil e; o Peru, 100 mil.

Havia uma manifestação marcada para ontem, sábado, na Praça Simon Bolivar, principal local de “abrigo” dos retirantes: um ato de protesto de brasileiros contra a presença de venezuelanos. Por questões absolutamente temporais, não consegui apurar como se deu tal movimento antes de fechar essa crônica. A situação é tensa pelas bandas roraimenses. A quantidade de mensagens de ódio nacionalista nas redes sociais é tanta que fez com que o defensor público federal daquele estado, Leonardo Magalhães, diante da tal notícia do ato de protesto xenófobo, disparasse um alerta geral. Temendo que haja um conflito na capital Boa Vista, o defensor pediu providências das forças de segurança estaduais e da Polícia Federal. O enfrentamento é iminente.

O número de casos suspeitos de sarampo, doença que havia sido erradicada no Brasil desde 2015, por lá já chega a 71, até o último boletim da saúde pública. Em Manaus, são 32, no total. O Governo Federal publicou há duas ou mais semanas, já nem lembro, algo que parecia ser um decreto de “emergência social”, mas nada parece ter acontecido. Pelo menos nada significativo. Não há barreira sanitária na fronteira e pouco se houve falar em progresso nas ações de promoção social.

Roraima não é aqui, mas está bem próxima e já ouvimos os seus ecos. Roraima não é aqui, mas o Haiti, como dito na canção do Caetano, parece ser, de tanta miséria e tanta dor. Miséria e dor de todas as ordens, desde a material à espiritual. Fico me perguntando: se a mesma situação se reproduzisse num estado do sudeste brasileiro, seria a velocidade de resposta  assim tão lenta? E acabo concluindo que talvez fosse, por incrível que pareça. Olha só o ponto a que eles deixaram o Rio de Janeiro chegar! Socorro, precisamos de auxílio, de misericórdia e de humanidade! Estamos a ponto de matar por um pedaço de pão. #Pensa