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Crônicas de Domingo - 16 de Dezembro de 2018 15/12/2018 às 00:00 - Atualizado em 15/12/2018 às 13:06
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Um menino baiano, morador de Feira de Santana, viaja a Brasília, com a avó e a irmã, para a celebração de aniversário de um primo. No domingo passado, o baianinho, de 6 anos, foi à quadra do condomínio em que estava hospedado, jogar bola. No meio do jogo, outro garoto tropeça sozinho no próprio drible e cai de cara no chão, ao lado do viajante. De imediato, e sem perguntar o que havia acontecido, os pais do garoto que se machucou entraram na quadra e fizeram um escarcéu.

O pai do ferido segurou a criança, achando que ela tinha sido causadora da queda, e mandou que seu filho a esmurrasse. Na sequência, a mãe, “ofendidíssima”, deu um tapa no rosto do garoto, tão forte que ele caiu. Ouvi essa narrativa logo cedo, pelo rádio e, de tão absurda que me pareceu, fui pesquisar se era verdade e acabei dando de cara com o fato, inclusive documentado pelas câmeras de vigilância do condomínio.

Saí de casa com aquilo na cabeça: tenho um certo horror a essas pessoas que se consideram “cheias de razão” e procuram justificar seus atos a partir dessa falsa certeza – do tipo, os fins justificam os meios: “era necessário fazer justiça e salvar a honra do meu filho”. No fim, elas sempre acham que podem tudo e têm um discurso pronto na ponta da língua. E se não vencem no argumento, apelam à violência.

Horas depois, na academia, falávamos de futebol, de investimentos para o Brasileirão 2019 e de novos talentos. E surgiu o assunto de um garoto aqui do Amazonas, filho de pais humildes, que jogou nas categorias de base de times do sudeste e do sul do País. Na última temporada, ele, com 15 anos, brilhou, seu time foi campeão e um de seus gols eleito como e melhor do ano, para aquela faixa etária.

Na hora de ser contratado, o técnico pediu “uma ajuda”, falou a ele que o pai precisava colaborar e, como seu pai não a tinha, não foi contratado. Ficou outro garoto, não tão bom, mas que a família tinha R$ 4 mil para dar ao técnico. Agora ele está de volta ao Estado e jogando no plantel de um dos times do Barezão. Imaginei o quanto o episódio pesou para aquele adolescente. Vi a foto dele com o troféu de campeão e o de melhor gol, assisti a um vídeo do gol que lhe conferiu o título... o quão impactante o desfecho de tudo deve ter sido a ele?

O dia prossegue e eu o termino lendo a notícia, fresquinha, que o ex-deputado Carli Filho, do Paraná, que matou dois jovens por dirigir embriagado, deverá cumprir a pena em casa, com o uso de tornozeleira. O crime demorou 10 anos para ser julgado, ele nunca foi preso e, em fevereiro, foi considerado culpado e recebeu uma pena de nove anos e alguns meses. Mesmo com o agravante dele ter insistido em dirigir bêbado e de ter atingido, a 160 km por hora, o carro de dois jovens, que morreram na hora, a defesa apelou e conseguiu a redução de pena, dando a ele o direito a cumprir pena no semiaberto, que está superlotado. Deverá ir pra casa, com monitoramento eletrônico.

Que País estamos construindo? Um país onde todos somos iguais perante a lei? Mas como diz a canção, “somos todos iguais, mas uns mais iguais que os outros”. #Pensa