Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Mentiras Sinceras

Artigos de Domingo - 28 de Agosto de 2016


29/08/2016 às 00:00

A semana passou tão rápida, estive tão envolvido com coisas minhas, pessoais, que nada me chamou atenção! Nada mesmo. Nem o processo de impeachment, nem os dados econômicos, nem o desemprego. Tudo parece batido. Até que na madrugada da sexta-feira li um post sobre nomeação ao Tribunal de Justiça e parei para pensar. Um blog relatava a nomeação de uma pessoa para um cargo em comissão de assessoria no TJ, censurando a medida, alegando que há inúmeros concursados que não foram chamados ao cargo, etc&tal.

Mas eu só cheguei à postagem do blog porque um conhecido das redes sociais a reproduziu com o seguinte enunciado: “Será que algum velhinho está comendo?”. Abaixo do título, a foto de uma pessoa, uma mulher, relativamente conhecida, estampava a manchete. E nessas horas penso que a afirmativa de Umberto Eco, de que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, precisa realmente ser levada a sério. A mídia, vez por outra, gosta de pegar algumas pessoas para “pato” e não impõe limites à falta de respeito. Se isso eventualmente acontece com as mídias convencionais, o que dizer então das “alternativas”?

Tive vontade de dizer “muitas e nada boas” (não sou de “poucas e boas”) ao autor do tal enunciado, mas me limitei a comentar que achava aquilo leviano. Ele acabou fazendo um mea culpa, mantendo a reprodução do blog, mas alterando completamente o enunciado. E na verdade talvez ele sequer tivesse a exata dimensão de o quão ofensivo e leviano ele estava sendo. Porque nossa sociedade, ultimamente, tem tomado essa conformação, desrespeitosa, superficial, mesquinha mesmo, não se importando se vai ofender ou expor alguém injustamente; ou ainda se vai tocar em assuntos que não dizem respeito a ninguém.

E isso é extremamente recorrente, seja em termos pessoais, seja naqueles coletivos. Há horas em que a informação perde completamente suas características, informativas, jornalísticas, éticas, para se transformar em boataria encomendada, que servirá aos fins de determinada pessoa ou grupo. Uma publicidade em novo formato. Uma disputada de quem conta a melhor mentira, mas crível. E em tempos de eleições, estaremos fadados a testemunhar muitas “presepadas”.

Já não é de hoje, por exemplo, que desconfiamos da credibilidade dos resultados das pesquisas eleitorais, seja em termos locais, seja em termos nacionais. Há, pelo menos, duas eleições que a divulgação dessas pesquisas nunca bate com o resultado do pleito, nem em primeiro, nem em segundo turno. Elas mais parecem estratégia de marketing para influenciar o eleitor, do que apuração científica de dados estatísticos. Todo mundo falou, protestou, mas nada aconteceu. Elas estão de volta, acompanhadas de postagens duvidosas, pondo em questionamento a dignidade desse ou daquele candidato.

O que resta fazermos? Sinceramente não sei. Talvez devamos ignorar por completo determinadas informações. Talvez não devamos nem mesmo reproduzi-las para questioná-las. Deixemos que elas morram por elas mesmas. Na verdade, essa é uma pergunta que não sei responder. Do alto dos meus 50 anos, celebrados hoje, percebo que este é um tempo difícil de termos certezas absolutas.#Pensa


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