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No Caminho

Crônicas de Domingo - 18 de Fevereiro de 2018 18/02/2018 às 00:00 - Atualizado em 18/02/2018 às 07:30
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Por ironia do destino, imigrantes refugiados venezuelanos vivem em estado de precariedade na Praça Simon Bolivar, no trevo das Avenidas Venezuela, das Guianas e Brasil, no bairro de São Vicente, em Boa Vista, Roraima. O logradouro serve de “abrigo” aos vizinhos estrangeiros que diariamente atravessam a fronteira, numa média diária de 300 pessoas – pelo menos até ontem, por que os números hoje podem ser maiores, devido à grave crise que se abate sobre aquele país.

A ironia está no nome da Praça, Simon Bolivar, líder político e militar venezuelano, chefe das revoluções que libertaram Venezuela, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Bolívia do domínio espanhol. E na derivação do nome do libertador, o “bolivarianismo”, a “filosofia” de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, que pregava a independência do povo venezuelano. A cena trágica – refugiados venezuelanos vivendo à míngua na Praça Simon Bolivar de Boa Vista em razão do bolivarianismo – é agravada com o aparecimento de casos de sarampo entre as crianças imigrantes, uma doença erradicada no Brasil desde 2015.

Mais de 40 mil cidadãos venezuelanos vivem na capital de Roraima, superando 10% da população nativa, numa cidade que vive praticamente de serviço público, capital de um estado que tem na exportação de madeira sua maior atividade econômica empresarial. Nesses cenários, naturalmente floresce todo tipo de atitude, desde a solidariedade, ao ódio a estrangeiros, a xenofobia. Recentemente, a polícia roraimense prendeu um guianense suspeito de atear fogo a duas casas de venezuelanos. O motivo alegado inicialmente foi o roubo de uma bicicleta. Mas na verdade foi a perda de “espaço” nas ruas.

E a vida segue assim. Nós que ontem nos apiedávamos com a trágica migração síria para a Europa, que nos emocionávamos com as fotos das crianças mortas nas praias da Itália. Nós que somos filhos, netos e bisnetos de migrantes portugueses, semitas (sejam as gerações de Isaac, sejam as gerações de Ismael) e de nordestinos vindos no ciclo da borracha, atrás de dias melhores; teremos a chance de viver um novo ciclo migratório bem de perto. Boa Vista é a única capital que tem caminho pavimentado até Manaus. Pode esperar que eles aqui haverão de chegar.

Roraima recebeu uma missão de ministros de estado e há uma semana uma visita presidencial. Na última sexta-feira, o Diário Oficial da União publicou dois decretos presidenciais reconhecendo a situação de vulnerabilidade e criando um comitê de assistência emergencial que, na prática, ainda são incógnitas. Mas nós teremos a chance real de exercer nossa cidadania e nossa humanidade, sem pieguismo, novo farisaísmo ou ataques de neonazismo. Precisamos ultrapassar os limites de berrar que é necessário fechar as fronteiras ou vociferar que o monstro norte-americano é o culpado pela situação. Afinal, numa cidade que tem menos de 350 anos, quem de nós tem quatro gerações manauaras puro-sangue? Assim como a eles, essa terra um dia nos acolheu, ou a nós, ou aos nossos antepassados. #Pensa