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O Benefício da Dúvida

Crônica de Domingo - 05 de Agosto de 2018 04/08/2018 às 00:00 - Atualizado em 04/08/2018 às 17:41
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Ilustração de Marco Melgrati

Das muitas coisas importantes que aconteceram durante a semana, chamou minha atenção a realização de audiências públicas pelo Supremo Tribunal Federal para discutir a descriminalização do aborto no Brasil. Pensei em escrever sobre o assunto, considero importante falar sobre o tema, mas desisti. Percebi que depois de décadas defendendo uma mesma posição, acabei me vendo em dúvida, diante de uma série de elementos que a vida me ensinou que são obrigatórios serem levados em consideração.

Depois de tantos anos eu estou em dúvida, não tenho uma opinião completamente formada a respeito. Tenho questionamentos que preciso ficar atento para responder. Considerei a dúvida um benefício, que me prova que estou vivo e que, apesar da idade, apesar da experiência, apesar dos valores e da formação religiosa, ainda tenho coisas a aprender. O bom da vida é que a gente pode mudar de ideia a qualquer momento! Por isso decidi não emitir qualquer opinião, especialmente sobre algo que eu não sei o que dizer a respeito. Opinião, principalmente pública, precisa ser levada muito a sério.

Mas há gente de sobra falando por falar, emitindo opinião de maneira imediatista e irresponsável. Há quem mude de opinião pela conveniência do público a quem fala e há que a emita de acordo com o gosto do “freguês”. Diariamente a gente vê e ouve absurdos ditos com naturalidade e mentiras conscientes afirmadas com convicção de verdade. Percebi que tenho muitas dúvidas sobre uma infinidade de coisas; que sou menos de certezas e mais de indagações. Até porque as situações não são lineares e bilaterais – elas são prismas de inúmeros lados.

Serve de exemplo a crise migratória que vivenciamos. Há a questão humanitária, não podemos tratar do tema de maneira xenófoba e nacionalista, até por que muitos de nós somos filhos, netos ou bisnetos de imigrantes. E mesmo assim, as fronteiras devem ser guarnecidas de critérios. A solução não está pronta na palavra de ordem desse ou daquele grupo, ela precisa ser construída. Mas as pessoas seguem vociferando suas opiniões apaixonadas ao extremo. E a gente vê de tudo, até quem omita opinião sem qualquer conteúdo.

Na maioria das vezes observo que o diálogo não se estabelece devido ao dogmatismo parlamentar de quem representa a população. Misturam religião com tudo, sejam os cristãos das mais diferentes denominações, os não-cristãos também de vários matizes, os neolibertários e os neoespartanos (sim, esses dois últimos agem como se fosse grupos religiosos extremistas). No fim das contas me pergunto se misturar religião num país laico é um caminho correto, já que as leis e os parlamentares devem servir a todos.

A experiência legislativa das bancadas religiosas mostra bem que essa combinação acaba sendo, na quase totalidade, uma grande hipocrisia. Bom exemplo é o Eduardo Cunha, para não citar uma centena de outros. #Pensa