Terça-feira, 19 de Novembro de 2019

O Halloween nosso de cada dia

Manaus, na sua parte mais antiga, mais histórica, é uma ode ao desprezo! Amanhã, se o prédio da Santa Casa desabar inteiro, ou então a Boothline, ficará por isso mesmo.


02/11/2019 às 13:00

Sete da manhã de quinta-feira passada, rua Dez de Julho, no trecho entre a Eduardo Ribeiro e a Tapajós, bem no quarteirão do Teatro Amazonas. Do lado esquerdo da mão da rua, uma obra fechou a calçada com tapume. E fora do tapume derramou areia, seixo e ainda colocou 3 depósitos do tipo disk entulho! Tudo encostado ao tapume, como se não existisse pedestre, direito de ir e vir e ordem no espaço público. E o pior: devia estar ali há dias e deverá ficar por tantos outros. Aí eu penso: será que eu estou ficando muito exigente e chato? Ou isso é um absurdo? Meu pai diria que nem na roça se faria assim, tão sem ordem. Ele adorava usar a roça como antítese de cidade, de urbanização. Devo dizer que tenho me sentido meio “roceiro” ultimamente.


Em algum momento que não sei precisar, perdemos a autoestima e a autoridade da coordenação do espaço público. E a cidade sobrevive assim. Alguém vai dizer: dá um pulo lá da invasão Desesperança 23 que é o que mais tem! Mas a invasão não é a lateral do Teatro Amazonas. Perdemos pulso onde consideramos nosso símbolo, onde nesses 350 anos de Manaus todo mundo diz que é a cara da cidade, o prédio mais belo, símbolo dos tempos áureos da borracha, bla bla bla! Se perdemos ali, não encontramos essa consciência cidadã em nenhum outro lugar.
Quando em 2014 os camelôs foram retirados da Eduardo Ribeiro - algo que parecia impossível - eu me enchi de esperanças. Muita gente bradou que depois da Copa eles voltariam. Permaneci crente, dizendo que não. Não foi depois da Copa - mas eles voltaram. Não voltaram com aquelas lonas e barracas, mas com novas formas. E o centro está cheio. A cidade, na sua parte mais antiga, mais histórica, é uma ode ao desprezo!
Lembro quando fui a primeira vez ao Panamá. Lá, o centro histórico, conhecido como Casco Viejo, era motivo de piada: diziam que depois do bombardeio norte-americano, a paisagem teria ficado melhor, de tão decadente que era! Às vezes parece que Casco Viejo é aqui! E pior: a gente está anestesiado, acostumado! Amanhã, se o prédio da Santa Casa de Misericórdia desabar inteiro, ou então a Boothline, ficará por isso mesmo. Talvez esse seja o reflexo de uma cidade que não sabe o que quer ser ou aonde quer chegar. Pelo menos, se sabe, não foram planos construídos coletivamente ou compartilhados com seus cidadãos.
Há áreas que se prestam à renovação de uso, como o antigo quadrilátero comercial da Zona Franca de Manaus. Hoje, um vazio urbano repleto de usos indevidos, mas pródigo de possibilidades, de horizontes! Quem nós queremos ser? Será que conseguiremos responder isso nas próximas eleições?
Mas a quinta-feira de Halloween ainda aguardava outras travessuras urbanas: fugi à rotina e cai no trânsito da cidade! Não tá fácil, olha. E para trânsito e mobilidade nem fingir que se  busca uma solução estão fingindo! #Pensa


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