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O Lado Bom da Crise

Artigos de Domingo - 15 de Maio de 2016 15/05/2016 às 08:37 - Atualizado em 15/05/2016 às 08:39
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Se a proposta da construção da Arena da Amazônia fosse agora?

Qual seria a sua opinião, hoje, se alguém lhe falasse em construir uma obra pública que custaria mais de R$ 750 milhões? Obra que, depois de pronta, teria uma manutenção anual mínima de aproximadamente R$ 6 milhões, que não viria 100% de uma atividade sustentável, mas boa parte dos cofres públicos? E acrescente ainda que o uso da obra não seria constante! Então? Pois é, há sete anos, quando anunciaram a construção da Arena da Amazônia, talvez essas perguntas fossem importantes, relevantes, necessárias mesmo! Talvez elas tenham sido feitas – eu lembro que alguns as fizeram. Mas elas não receberam a devida atenção.

Naquele tempo não vivíamos a crise financeira que hoje enfrentamos. Nem as conseqüências da queda de arrecadação e de um Brasil com mais de 11 milhões de desempregados. Literalmente, tudo era festa, ou melhor, evento. Gastar todo aquele dinheiro parecia ser condição indispensável para sediar a Copa do Mundo. E ainda acabamos sediando jogos das Olimpíadas! Mas havia, com certeza, outras formas de satisfazer às demandas da FIFA, sem despender tanto assim. Essa é uma lição que aprendemos em tempos de crise: precisamos encontrar a melhor relação custo benefício em toda e qualquer empreitada, seja ela pública, seja ela doméstica.

As queixas em razão da crise são muitas, não é para menos. Mas são tempos para reflexão e aprendizado. Cá entre nós, somos dados a exageros nababescos. Adoramos, aplaudimos, nos regozijamos com grandes pacotes de obras. Idolatramos os governantes por isso. Dizemos que elas geram emprego – o que é uma verdade, mesmo que imediata e temporária. Mas pouco nos atentamos ao “pós-obra”: à relação custo benefício, à utilidade cidadã da iniciativa e à sustentabilidade. Talvez devamos excetuar as obras de infraestrutura viária, unidades de saúde e escolas – que ainda assim precisam passar por um teste de consistência.

Em tempos de comprometimento das arrecadações estaduais com o pagamento da folha dos poderes executivos, acima do permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, reivindicar aumento salarial pode se configurar apenas em um jogo de cena, oportuno ao momento, já que na prática ceder ao apelo é “impossível”. Os tempos de crise nos ensinam a olhar para todos os lados e a nos reinventar. Quem assim não o fizer corre o risco de falir, de fracassar. Crises exigem união de esforços, pensamento estratégico, eficiência, eficácia e efetividade social.

Aliás, procedimentos administrativos que adiantem resultados em médio e longo prazo e façam um balanço dos benefícios e prejuízos, antecedendo o início da empreitada, e orientando as tomadas de decisão, deveriam ser uma rotina, sejam quais forem as vacas da hora, gordas ou magras. Mas essa não é uma realidade. Somos perdulários, gastamos à toa, na hora da abastança, e nos tornamos sovinas na escassez. Tanto assim que vejo um movimento intenso de questionamento de apoio financeiro aos eventos culturais, como primeiros a serem atingidos. Bom exemplo é Parintins.

Foram necessários 21 anos e uma crise das piores, para saber que o desembolso para Parintins era alto? Houve tempo para, gradativamente, tornar o “boi de arena”, as apresentações, independentes do dinheiro público, o que infelizmente não foi feito. Se não o foi em 21 anos, não o será de uma hora para outra. Mas é preciso começar