Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

O Muro

Artigos de Domingo - 22 de Maio de 2016


22/05/2016 às 08:52

A notícia caiu como uma bomba! A manchete do jornal da última quarta-feira anunciava “Está tudo liberado: Comércio informal volta com tudo às ruas do Centro de Manaus”. E a matéria relatava a volta de um antigo fantasma que muito assombrou a cidade: a venda ambulante, nem tão ambulante assim! Ao mesmo em que li a publicação, me veio à mente aquele domingo, 24 de fevereiro de 2014, quando desci a Eduardo Ribeiro para comprovar uma realidade que parecia um sonho impossível: a saída dos camelôs das calçadas.

De lá pra cá se passaram dois anos, dois meses e 28 dias. A cidade só lucrou, em todos os sentidos: mobilidade, cidadania, urbanismo, qualidade de vida. Os ambulantes ganharam as galerias populares, as calçadas estão sendo refeitas... Começamos aos poucos a tomar posse da cidade e a voltar a enxergá-la. Mas parece que todo aquele esforço começa a ser jogado fora. Aos poucos, a venda ambulante volta a ocupar os principais pontos da cidade, de maneira expressiva.

Carrinhos de mão repletos de frutas e verduras, carros de supermercado vendendo mingau, salgados e café, mercadorias penduradas em árvores e em tabuleiros são novamente as primeiras feridas de uma doença urbana crônica, que acreditávamos estar sob controle. Daí, para voltarmos àquelas barracas paradas no meio das calçadas, enfileiradas lado a lado, com seus guarda-sóis multicoloridos e suas lonas vermelhas, é um pulo. Que ninguém se iluda! Ainda mais se considerarmos que estamos em ano eleitoral, justamente para o Executivo e o Legislativo municipais.

Muita gente explica e justifica essa reincidência pelo índice de desemprego, que atinge 11 milhões de pessoas no País. E lança mão de velhas máximas: “deixa o cara trabalhar”, “melhor fazer isso que roubar”, “precisamos pensar nas pessoas e na segurança pública”. Fico pensando quanta ignorância, ou conveniência, existe por trás de quem brada essas “desculpas” aos quatro cantos, afirmando que é desumano combater os camelôs, coisa da burguesia!

Na verdade, a venda ambulante prejudica muito as atividades comerciais que pagam impostos e geram empregos. Lembro de um daqueles monstros de metal que vendia salgados e refrigerante a R$ 1,50 estacionado em frente a uma lanchonete, na esquina da Eduardo com a Saldanha Marinho. E o pior é que, além da concorrência desleal, o empresário recebia todas as fiscalizações possíveis e imaginárias, o que não acontecia com o “informal”. Temos aí a queda de arrecadação, o desestímulo ao emprego formal e a questão da saúde pública.

Podemos enumerar ainda outros prejuízos causados pela ocupação desordenada do passeio público. Ou mitos sobre o assunto. Mentira dizer que a permissividade de liberar a camelotagem reduz riscos à violência urbana! Dados estatísticos comprovam que 80% dela, em Manaus, têm origem no narcotráfico. E que muitas barracas no centro serviam de fachada para a distribuição de drogas, além de funcionarem como pontos para a recepção de pequenos furtos, a exemplo de celulares. Isso sem falar na desvalorização imobiliária dos imóveis da área atingida.

Tivemos tempo de sobra, na Manaus sitiada por casulos de lona no meio das calçadas, para descobrir que nada de bom aquela ocupação pode nos trazer. Infelizmente, a conveniência e o oportunismo parecem querer mudar a história, forjando justificativas a um absurdo totalmente prejudicial à cidade! É, camaradas, pelo visto, ainda somos terra de muro baixo, bota baixo nisso!


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