Publicidade
Blogs

O Preço da Atitude

Crônicas de Domingo - 11 de Fevereiro de 2018 10/02/2018 às 00:00 - Atualizado em 10/02/2018 às 16:26
Show militar jpeg

Durante a semana, um vídeo gravado dentro de uma instalação da 34º zona de alistamento militar, em Manaus, deu muito o que falar. Um jovem, por nome Sóstenes, fez uma “live”, falando do mau atendimento recebido por ele e outros muitos, um auditório inteiro. Na convocação que eles receberam, o Exército marcava comparecimento para 8 h e às 11h30 ainda não haviam sido atendidos. Na continuidade do vídeo, ele reclama que estavam esperando em pé, no sol, e foram transferidos para uma sala abafada.
Tenho impressão que Sóstenes não imaginava a repercussão que iria alcançar com o seu gesto. Nas redes sociais, uma legião de “cidadãos alfa” deram tratamento pejorativo à atitude. De “bichona” a “tu tá no exército”, “tomara que vá servir em São Gabriel”, os integrantes do tribunal das redes sociais detrataram a atitude daquele jovem. Fiquei refletindo bem sobre o assunto e acabei concluindo que toda história tem dois lados. E algumas talvez tenham até três. Por que nem tudo é tão simples ou óbvio assim.
Meu período de serviço militar (sim, eu servi no Colégio Militar do Exército, onde estudei a vida  inteira, e fiz estágio de selva) me traz boas recordações, a despeito de todo o esforço. Depois que o concluí, tomei aquilo pra mim como um rito de passagem. Há nações indígenas em que o jovem coloca a mão na luva de tucandeiras, para experimentar a dor e se tornar um guerreiro. Eu servi o Exército. Tornei-me mais consciente da Amazônia, tive mais noção de grupo e do que é construir uma equipe e ser companheiro. Acima de tudo, dei baixa com a clara mensagem de que eu era capaz. Não foi fácil, e nem é para ser, mas valeu a pena.
Entretanto, aquele jovem, o Sóstenes, não estava reclamando das longas horas de ordem unida no sol, ou na chuva, nem dos testes de aptidão física, nem dos exercícios com farda, coturno, mochila e arma. Ele não se queixou de ter que faxinar o rancho, ou de permanecer o dia inteiro na instrução ensopado, por que chovia. Ele pleiteou um atendimento cidadão. Ele não estava engajado, não fazia parte da tropa, ele estava ali como usuário de um serviço público – sim, as forças armadas são um serviço público, remuneradas com o dinheiro dos nossos impostos. E estava sendo mal tratado.
Não interessa a atmosfera de rigidez ou de dificuldade que a instituição transpareça para sustentar a sua respeitabilidade. A aura de destemor e resistência que carregam seus militares, homens e mulheres, nada tem a ver, nem acrescenta qualquer elemento à questão. Fazer um cidadão esperar três horas e meia, sem qualquer atendimento, não é producente, não é eficiente, não é eficaz, nem efetivo. Mesmo que seja no Exército brasileiro. Trata-se de uma organização inserida no contexto das demandas de modernidade administrativa, do cumprimento de metas, submetida às leis e chamada a servir cada vez, mais e melhor, ao cidadão. Sim, Sóstenes tinha suas razões.
Lamentei não ter visto o Exército, que conta com quadros de comando de qualidade excepcional, a exemplo do General Miotto, se posicionar sobre o episódio. Nem mesmo uma nota à imprensa. Lamentei também pela onda detratora em relação ao jovem. Ele exerceu o papel dele, de exigir seus direitos. Muitos dos que o xingaram querem “mudar o Brasil e o mundo”, mas acham que uns podem mais que outros. Não sei por que cargas dágua me lembrei do episódio em que o campeão olímpico norte-americano Cassius Clay atirou sua medalha olímpica no rio, por ter sido destratado num restaurante “para brancos”. Ele se tornaria Mohammad Ali e seria eleito “O Desportista do Séc. XX”. Talvez os novos cidadãos-nutella o classificassem como “mimizento”. Talvez eles desconheçam o valor de uma atitude discordante! #Pensa