Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

O Vento

Artigos de Domingo - 30 de Novembro de 2016


29/10/2016 às 00:00

Quarta-feira com noite de clima agradável. Chego em casa e abro as janelas, pra deixar o vento entrar. E como que, por encantamento, começo a ouvir uma música clara, forte, entrando com ele. Decido não ligar, nem rádio, nem televisão, para ouvir a canção que vem do show do Largo, bem em frente ao Teatro. E como parecesse mágica, eles tocavam “Teatro dos Vampiros”, do Legião Urbana.

Em 2016 contamos vinte anos sem Renato Russo e, consequentemente, sem a alma do Legião. Aqueles versos devem ter, no mínimo, 25 anos: “E a primeira vez é sempre a última chance, ninguém vê onde chegamos, os assassinos estão livres, nós não estamos”. E apesar de tanto tempo, “vamos sair, mas não temos mais dinheiro, os meus amigos todos estão procurando emprego, voltamos a viver como há dez anos atrás, e a cada hora que passa  envelhecemos dez semanas” parecem ter sido escritos ontem, pra uma realidade que ainda vivemos.

O vento e a música me transportaram no tempo, aos meus vinte anos, quando mudar o mundo era uma missão. Tempo em que o vento parecia ser o arauto das mudanças, como para Ana Terra, em O Tempo e o Vento. No início da vida adulta, lutei pela redemocratização brasileira, por um país socialmente bom e justo, pelo respeito aos direitos individuais. Quem não passou por isso, não sabe o seu significado.

A música continua por mais de uma hora no Largo. É uma banda cover do Legião. E as pessoas cantam em uníssono, convictas, como se fossem hinos de louvor, ou o mais recente sucesso! E aquilo me chega numa clareza questionadora... “Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo, quem roubou nossa coragem?”. Será que em 20, 30 anos, nossas angústias existenciais ainda são as mesmas? Onde foi que erramos? O que deixamos de realizar?

À medida em que o show prossegue, as lembranças afloram, como um filme, e me sinto confortado. É verdade que talvez tenhamos acumulado muitas frustrações ao longo do caminho. Mas, a despeito da distância e do cansaço, eu ainda guardo a chama daquele garoto que cantava em português errado, que achava que o imperfeito não participa do passado. Não, eu não me entreguei, não desisti, não me rendi, apesar de tudo. Sim, eu acredito na mudança. Creio que o novo sempre vem. E virá! #Pensa


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