Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Omissão

Artigos de Domingo - 9 de Outubro de 2016


08/10/2016 às 00:00

Tenho visto um grande número de pessoas pregando nas redes sociais o voto nulo. Uma filosofia do “é todo mundo igual, nada vai mudar, não merecem o nosso voto”. E constato, estarrecido, que o movimento é crescente, principalmente entre pessoas esclarecidas. Pregam o voto nulo como se agir assim fosse apontar alguma solução às questões demandadas pela sociedade.

Fico me perguntando em que momento da história brasileira aprendemos, com a experiência prática, que a indiferença e a apatia são capazes de transformar uma sociedade? Em cinqüenta anos de vida aprendi que a omissão é um autoflagelo: não resolve nada, nos torna submissos e é uma arma em favor de quem está no poder. Para mim, me perdoem os defensores da tese, votar nulo, ou em branco, é se omitir.

Imagine se nós, brasileiros, permanecêssemos inertes frente aos escândalos do Mensalão, da Lava-Jato!? Se não tivéssemos saído às ruas, contaminados por aquele espírito cívico que mobilizou milhões em todo o País, em maio de 2013!? Ali nasceram as reformas políticas implantadas. Se nos limitássemos a pensar que não valia a pena se manifestar, porque todos, tanto situação, como oposição, eram igualmente corruptos, o buraco em que nos encontramos poderia ser muito pior.

Desarticular as manifestações, manter o povo em suas casas, com medo, foi uma providência de quem não queria ser questionado. Ninguém me tira da mente a idéia de que o vandalismo que arrefeceu o movimento #VemPraRua foi plantado por quem tinha interesse em que nada daquilo fosse apurado. Levar a conta de que toda expressão da vontade popular não passava de outra coisa que não manipulação da direita e de desordeiros servia à conveniência de quem?

Mas ainda assim, diante de todos os argumentos, um amigo por quem tenho imenso respeito me diz: “mas aqui em Manaus são iguaizinhos, tudo farinha do mesmo saco”. E eu me permito discordar: têm idades diferentes, aliados diferentes, propostas diferentes, retóricas diferentes, soluções diferentes aos mesmos problemas, vêem a mesma cidade de maneira diversa. Não dá pra achar que são iguais não! A não ser que você se recuse a ver as entrevistas e os debates!

Talvez a razão da proposta do voto nulo crescer entre os mais esclarecidos ou melhor posicionados seja ausência de problemas urbanos. Estão satisfeitos, vivem numa cidade em que todos os serviços públicos estão de bom tamanho, exatamente porque não os utilizam. Se limitam a falar mal do trânsito. Talvez seja por isso mesmo que os cidadãos que moram nos bairros mais distantes se posicionem melhor, sem essa abordagem “Pilatos”. Eles não querem lavar as mãos, querem uma cidade melhor e mais justa.

Observo ainda algumas criaturas nas redes sociais declarando, com uma certa “autoridade moral”, que ninguém é merecedor do seu voto. Fico imaginando o grau de grandeza de suas cidadanias – devem ser pessoas exemplares, super-qualificadas, gênios mesmo – para adquirirem esse “privilégio” de casta. Mas pelo sim, pelo não, é bom lembrar que, nas eleições de primeiro turno, os vereadores de Manaus receberam somente 25% dos votos válidos de todos os cidadãos que compareceram às urnas. Muitos se omitiram, pra depois ficar postando nas redes sociais que é um absurdo eleger fulano, beltrano e sicrano. Talvez, se não tivessem se omitido, não precisassem fazer isso! #Pensa


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