Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Onde Foi Parar Tudo Aquilo Agora?

Artigos de Domingo - 24 de Julho de 2016


23/07/2016 às 00:00

A suspensão do WhatsApp durante a semana, aliada a uma pane nos serviços da minha operadora de telefonia celular, me fez lembrar que fui do tempo em que dependíamos do telefone convencional, discado, para nos comunicar. Fui do tempo em que não havia celular, nem computador, tempo em que tudo isso parecia parte de estórias de ficção científica. Recordei que, no colégio, cheguei a fazer, em “Educação para o Trabalho”, aulas de datilografia: A-S-D-F-G, Ç-L-K-J-H. Na faculdade, o laboratório de texto do curso de comunicação era formado por várias fileiras de máquinas de escrever, em bancadas, e um mural de feltro.

Sim, fui de um tempo em que, ao surgir o computador de uso comum, não havia a internet, e as limitações eram muitas. Os aparelhos todos eram distintos: um computador, um relógio, uma agenda, um gravador, uma câmera fotográfica e uma filmadora. Sim, nasci quando o Brasil ainda era uma ditadura militar, em que tínhamos medo de falar sobre certas coisas, em que a livre expressão parecia ser uma utopia: “menino, não diga essas coisas por aí, pode ser perigoso”. Um tempo em que discordar era perigoso, ser militante de uma causa, então, nem se fala.

Mas sobrevivi a tudo isso. Assisti à anistia aos perseguidos políticos, fui às ruas pedindo as “Diretas Já” e a redemocratização do País. Eu estava lá, pra ver o Betinho, irmão do Henfil, retornar ao Brasil. Li os livros do Gabeira e refleti quando ele dizia que a esquerda nacional não tinha projeto político para as liberdades individuais. Sonhei com um país melhor, pra mim, para os meus. Fui às urnas pela primeira vez, após o Golpe de 1964 e também elegi a Assembleia Nacional Constituinte. Passei por todos os ministros e planos econômicos possíveis e imaginários: Cruzado, Bresser, Real. Vivi inflações assustadoras e presenciei a paridade cambial entre a moeda brasileira e o dólar norte-americano.

Lembro bem da primeira eleição direta, entre Gilberto Mestrinho e Josué Filho, para governador, que era pauta diária nas conversas em casa. “Como será que os militares reagirão?” Sim, havia medo entre os cidadãos. Até então, tudo o que conhecíamos de eleição era Arena e MDB, com seus candidatos na TV, em fotos 3x4, e uma locução que anunciava nome, pseudônimo e número: “Fulano de Tal dos Anzóis Pereira”, “Fulano de Tal”, ou “Fulaninho”, número 00007.

Fui do tempo da eletrola, da enceradeira, do disco de vinil, da TV Tupi, da Buzina do Chacrinha. Do tempo da Dona Solange e dos certificados da Censura Federal. De quando os taxis eram, via de regra, fuscas caindo aos pedações, sem padronização de cor. Pertenci a uma época em que viajar era um luxo que nos dávamos uma vez por ano, geralmente para o Rio de Janeiro, no vôo da Varig RG 205. Li as primeiras notícias sobre a Aids, que ninguém sabia ao certo o que seria. Perdi dois ex-professores para o então novo vírus, ambos hemofílicos.

E, apesar de todas as dificuldades, aqueles foram tempos em que sonhávamos com a liberdade. Em que lutamos por ela e, de certa forma, a alcançamos. Queríamos um país mais justo, mais democrático, onde a maioria respeitasse os diretos das minorias. Sobrevivi a todo esse tempo. Meu tempo é hoje, da tecnologia e da informação em tempo real. Mas estranho, num momento em que avançamos tanto, tanta caretice ganhar espaço em todas as frentes, e com tanta evidência. Uma onda conservadora toma conta da sociedade. Parece que queremos voltar atrás nas conquistas sociais. Há até quem se diga saudoso do golpe militar. Onde estão nossos desejos de liberdade? Onde foi parar tudo aquilo agora? #Pensa


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