Segunda-feira, 01 de Março de 2021

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

Poucas vezes durante a pandemia tenho ouvido referência ao desemprego ou à desocupação dos artistas. É como se eles não trabalhassem, ou como se ser artista não fosse uma profissão, mas um hobby, um passatempo.


20/02/2021 às 08:05

Na semana que passou lembrei muito de um livro infanto-juvenil do Paulo Leminsk chamado “Guerra Dentro da Gente”, que conta a saga de Baita, um menino que sai de casa para viver uma grande aventura e aprender a arte da guerra. A certa altura da obra, ele se vê em um barco correndo o risco de naufragar em meio a uma tormenta. Naquela confusão alguém grita para jogarem ao mar todo peso desnecessário, pela segurança do navio. Outro grito então responde: “Joguem o poeta, ele é inútil”.

Inevitável ao leitor se perguntar: por que o poeta é inútil? Poesias falam à nossa razão e às nossas emoções, as mais diversas. Ao lermos ou ouvirmos aquele conjunto de palavras justapostas de maneira tão mágica, somos tocados de alguma forma. O poeta não é inútil, ele é questionador, provocador. O poeta é revolucionário! E talvez por isso ele incomode muito a alguns, em nome de uma aparente segurança social. Foi assim que eu tomei aquela afirmativa para jogá-lo. Li muitas vezes as lições de Baita.

Mas eu lembrei de Baita e da passagem porque fiquei lembrando dos artistas, nas suas mais diversas expressões. A sociedade costuma enxergar o artista como alguém à margem, como se ele não fosse um trabalhador, que tem contas a pagar, família a sustentar e todas as demais obrigações cidadãs ordinárias. Talvez a sociedade só enxergue mesmo os grandes artistas de sucesso nacional, altamente conhecidos, que faturam milhões. 
Poucas vezes durante a pandemia tenho ouvido referência ao desemprego ou à desocupação dos artistas, nas suas mais diversas expressões. É como se eles não trabalhassem, ou como se “ser artista no nosso convívio, pelo inferno e céu de todo dia” não fosse uma profissão, mas um hobby, um passatempo. E na verdade eles estão quase que completamente parados. Não há música ao vivo, não houve carnaval, talvez não tenhamos Festival de Parintins, não há exposições, eventos de arte e cultura.

Muita gente fala que todos precisam se reinventar, pensar fora da caixa. Virou até meio clichê dizer isso, como se fosse um ditame de livro barato de autoajuda. E eu me pergunto, o que seria isso para as expressões artísticas? Como esses profissionais, cantores, atores, cenógrafos, cenotécnicos, iluminadores, artistas visuais, bailarinos, escritores, roteiristas, músicos etc. fariam para se reinventarem? Eles têm seus fazeres artísticos. E precisam de público, de público pagante para tirarem seus sustentos.

Alguém há de vir com uma resposta ainda mais clichê: fazendo “lives” e se inscrevendo na Lei Aldir Blanc. Mas as lives funcionam, como remuneração, para os grandes artistas, que as fazem e vendem patrocínios. Funciona sim, para megaestrelas, como a Ivete Sangalo, que capta cotas de patrocinadores. Mas o nosso artista desconhecido, que muitas vezes fazemos questão de não enxergar, não tem esse poder de fogo. Como muitos não o tiveram para apresentarem projetos e satisfazerem aos requisitos burocráticos da lei emergencial de apoio à cultura. Nisso a arte imita a vida: as coisas são feitas para os grandes se darem bem.

Estamos completando um ano de pandemia agora em março e sinto que falta uma atenção especial a esse público, ao artista “comum”, do nosso dia a dia. Interessante que nunca a arte foi tão importante para gente quanto agora, que temos uma série de restrições de convívio social, uma solidão imposta, quando nos refugiamos na música, nos livros, nas séries... Acho que essa questão precisa ser melhor pensada, sob pena de sermos aquele que grita “joguem o poeta, ele é inútil” quando perguntados sobre os segmentos que precisam de ajudas e alternativas.

Ah, antes que eu me esqueça, Baita saiu de casa para aprender a arte da guerra e ele aprendeu a amar. Não, não é um spoiler, é apenas um caminho natural. #Pensa


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