Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Os Mitos

Artigo de Domingo - 20.06.2016


19/06/2016 às 00:00

Bernardo é meu sobrinho de 6 anos. Depois de tanto tempo sem crianças em casa – minhas sobrinhas já têm 26 e 32, desnecessário dizer da felicidade que ele provoca diariamente, seja numa ligação telefônica, seja numa visita. Desde muito cedo, antes mesmo de ir à escola, Bernardão, como o chamo, se acostumou a dizer que torcia pelo Boi Garantido. Não sei de onde ele tirou isso! Sou Caprichoso! E tanto o pai dele, Pedro, meu irmão, quanto a mãe, Rommy, não são tão ligados assim em boi bumbá. Acho até que nunca foram a um ensaio dos bois em Manaus. E se foram, faz tempo.

Mas o Bernardo se autoproclamou torcedor da nação vemelha-e-braca e pronto, ponto, sem interrogações, pra não restar a menor dúvida! “O meu boi Garantido”, como ele mesmo faz questão de dizer, num português correto e bem explicado, que chega a ser engraçado. E eu respeito, evitando influenciar. Ultimamente, ele anda cheio de novidades. A cada semana é uma surpresa. Uma das últimas foi quando ele chegou à casa da avó paterna, Dona Anna, e ,antes mesmo de cumprimentar a todos, foi logo falando: “agora não sou mais Garantido, torço pelos dois, minha amiga disse que temos que gostar de todos”. Esse Bernardo tem cada uma...

Mais recentemente, ele anda falando das lendas. A turma dele vai dançar “o bicho folharal” na escola, e ele ficou todo interessado em saber a respeito de outros mitos da floresta. Até me perguntou sobre a matinta-pereira. Num sopro de felicidade indizível, lembrei imediatamente da minha avó, Dona Donata, criada no seringal Rivaliza, perto de Tarauacá. Ela me narrava, quando menino, sobre a bruxa da floresta que vinha pedir fumo nas casas e que fazia um barulho estranho, que ela reproduzia durante sua narrativa. Com aquela pergunta, meu sobrinho me remeteu a tantas lembranças boas e sagradas.

Bernardão, que é branco transparente que dá pra contar as veias, e que já tem sua dupla nacionalidade, com cidadania portuguesa, anda com a sua “caboquice” em dias. Na última quarta-feira me pediu de presente um livro de lendas, mas “com um montão delas”, e “lendas amazônicas”, bem frisou. Liguei pra ele no dia seguinte e ele não me deixou esquecer: “tio, quando você vem trazer meu livro?”. Tenho por princípio considerar que as coisas que as crianças gostam têm futuro. E fico feliz que num mundo tão repleto de “estrangeirices” e novas tecnologias, uma criança urbana espontaneamente goste de boi bumbá, de lendas e de outras coisas que celebrem nossas raízes culturais.

Sexta-feira próxima começa o Festival Folclórico de Parintins. Lá vou me reencontrar com o curupira, a iara, a matinta pereira, o bicho folharal. Terei meu conselho de anciãos Muras e Mundurukus. Vou renovar meus credos amazônicos, refletir sobre preservação, mesmo num ano tão difícil para o boi bumbá. Inúmeras situações levaram a população a crer de uma suposta pouca importância da cultura de raiz. E o discurso “Saúde versus Cultura” acabou pegando no senso comum, como se os milhões não investidos no Festival fossem salvar o sistema público de saúde. Infelizmente não vão.

A falta do investimento deixará talvez de gerar trabalho e renda para uma cidade de 100 mil habitantes, com poucas oportunidades, que tem metade de sua arrecadação anual baseada no evento. Mas compramos a retórica simplória do “isso ou aquilo“, e nos danamos a falar mal do Festival, sem raciocinar, sem pensar direito no assunto. Os altos valores pagos à logística (que não foram uma decisão dos bois, nem da prefeitura daquela cidade) parecem jogar águas abaixo um esforço de anos para valorizarmos aquilo que é nosso. Mas como é ancestral e de raiz, continuará a habitar os sonhos e curiosidades do Bernardo e de milhares de outras crianças. As coisas que as crianças gostam têm futuro. Viva a cultura popular! #Pensa


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