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Os Snipers e os Spoilers

Crônicas de Domingo - 11 de Novembro de 2018 11/11/2018 às 00:00 - Atualizado em 11/11/2018 às 00:39
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O governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, declara, desde o período eleitoral, a intenção de “autorizar policiais a abater criminosos que estejam portando fuzis, em qualquer circunstância, mesmo que de costas”, ainda que não haja confronto. Falou em treinamento para atiradores de elite, espécies de snipers (palavra da moda para franco atiradores), chegando até à possibilidade do uso de drones capacitados a atirar. A declaração continua repercutindo fortemente na imprensa.

Sob intervenção federal na segurança pública desde 16 de fevereiro deste ano, o Rio atravessa uma situação de quase guerra civil, com áreas inteiras dominadas por narcotraficantes e milícias, que inclusive guerreiam entre si, para ocupação de novos territórios. Áreas em que o aparato policial estatal muitas vezes não sobrevalece. Tudo tão absoluto quanto a beleza natural da cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos. Acrescente-se ainda mais dois ingredientes: o nível de corrupção da polícia é altíssimo e a intervenção pouco ou nada resultou eficaz.

Em cenários como esse, e com traficantes e milicianos ostentando um poder bélico semelhante às tropas nacionais, talvez até superior em determinados itens, a intenção, repito, a intenção não parece nada tão surpreendente assim. Wilson Witzel é advogado, ex-fuzileiro naval e ex-juiz federal; doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Processo Civil e professor de Direito Penal Econômico há mais de 20 anos: presume-se conhecedor da lei e da necessidade dos trâmites constitucionais envolvendo as forças de segurança e os ministérios públicos.

O que me surpreende, me choca mesmo, é o spoiler da intenção. Spoiler, outra palavra da moda, para definir alguém que antecipa, que entrega situações futuras, estragando o fator surpresa. No popular, quem quer pegar a galinha não diz “xô”. Qual o objetivo de Witzel ao revelar o plano? É como se as blitzs da lei seca fossem anunciadas em entrevista coletiva, com detalhes sobre todos os locais e horários a serem realizadas. Nesses casos, a guarda da informação é estratégica.

Sim, faltou inteligência estratégica ao plano do futuro governador carioca. Se esse era mesmo o plano, porque vários juristas argumentam que a legalidade da conduta não é clara. Fica, pelo menos para mim, a pergunta: havia uma proposta efetiva ou apenas um jogo de palavras para ganhar votos durante a campanha, falando aquilo que parte do eleitor quer ouvir, mesmo sem ser possível? Snipers ou spoilers? Essa é uma pergunta que a gente deve fazer sobre todos os novos ocupantes do poder no País. A resposta só virá com o tempo! A nova política é nova em que? Veremos. #Pensa