Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Ouvindo Rugidos

Artigo de Domingo - 26 de Junho de 2016


28/06/2016 às 00:00

Do alto dos meus quase 50 anos, a serem feitos em agosto próximo, minha certidão de nascimento manauara me permitiu certa intimidade com onças e outros animais silvestres! Lembro quando ia assistir, ainda pequeno, aos desfiles cívicos de 5 e 7 de setembro. E mesmo depois, quando passei a integrar o evento, nos pelotões do Colégio Militar. Portentosa, lá sempre estava a onça do Cigs, num Jeep, escoltada por militares, fazendo sua aparição! Fui muitas vezes ao zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva. E fui até guerreiro de selva. Das muitas passagens engraçadas da época de serviço militar, está o dia em que eles soltaram a onça mascote no meio da tropa de novatos.

Outro dia recordei uma entrada do Dudu Monteiro de Paula, em rede nacional de televisão, ao vivo, ladeado por uma onça e por uma jiboia gigantesca. No meio da história, o felino avançou na cobra e nem um trovão foi capaz de separar os dois. Ri muito aquele dia. Lembro de ter pensado algo como “isso é o inesperado da Amazônia”. Acabei me acostumando com as onças e com a expertise do Exército brasileiro na matéria. Não existe em todo o país outra instituição pública com tanto conhecimento e experiência com esses animais. O Cigs é motivo de orgulho, não só pelas felinas, mas pelo conjunto da obra.

Durante a passagem da tocha olímpica por Manaus, um incidente lamentável levou à morte de um dos animais daquele Centro, a Juma. E a repercussão foi gigantesca. Até maior que a morte daquele garoto de seis anos, o Andrezinho, que foi adotado, nunca frequentou a escola e só recebeu a certidão de nascimento após falecer, afogado em uma queda num bueiro. O Ipaam disse que não autorizou a presença do animal - confesso que me perguntei qual a competência daquele órgão, que não a incumbência legal, para fazê-lo, frente à experiência de décadas do Cigs. Todo mundo lamentou, condenou, e alguns chegaram a dizer que a única herança da passagem do fogo olímpico por aqui foi a morte da Juma.

Não vi ninguém se perguntar sobre a integridade física e a vida dos seres humanos que estavam presentes no momento do acidente! Sim, eu lamentei pela morte do animal. Mas fiquei mais apreensivo pelos humanos! Devo ser um idiota da elite branca de direita! Preocupado com seres humanos! Como pode, né? Ouço rugidos de uma sociedade onde algumas coisas parecem estranhas. Nas redes sociais, reproduzimos tudo, instantaneamente, em tempo real, sem pensar, sem apurar, sem nos aprofundarmos no assunto! Amanhã, encontraremos outro episódio, outra tragédia, outro caso fortuito para direcionarmos nossa imensa vontade de criticar e protestar! E nada acontecerá! E se acontecer, corremos provavelmente o sério risco de nos arrependermos de nossas opiniões!

Alguém recorda do episódio do técnico da seleção inglesa de futebol? Sua declaração que Manaus era quente rendeu, para nós, um incidente “diplomático”, quase o nomeamos inimigo público número um de Manaus. Até a chegada dos ingleses, que se integraram perfeitamente à cidade e contribuíram, em muito, com o sucesso de Manaus na Copa do Mundo. Mas continuamos a ver grandes inimigos em moinhos, enquanto eles permanecem invisíveis ao nosso lado! #Pensa #PensaAntesDeFalar


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