Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Passarinho

Artigos de Domingo - 05 de Fevereiro de 2017


04/02/2017 às 00:00

Antes de sentar pra escrever meu texto de domingo, uma lembrança me veio forte à mente. Um texto que eu li na época do colégio, por volta dos 13 anos, e que nunca esqueci. Uma crônica, já não me lembro se da Lygia Fagundes Telles ou da Clarice Lispector, daquelas do livro didático de português, que depois usávamos para os exercícios de interpretação de texto.  Narrava a história, em primeira pessoa, da autora, que após inúmeros problemas de sintonia em seu aparelho de televisão, pediu pro filho dar uma olhada na antena externa, onde a família encontrou um ninho, com um passarinho ainda filhote, de perna machucada.

Resolveram então trazer o ninho e o pequeno ser pra dentro de casa, sempre monitorando a possível proximidade da mamãe pássaro, para não quebrar o vínculo. Cuidaram do passarinho, que rapidamente se transformou no xodó da casa – uma presença tão delicada, num ambiente sem crianças, é sempre encantadora. O tempo passou, o ferimento curou, o encantamento aumentou, até o dia em que a autora percebeu a pequena criatura trocando gorjeios com outra ave, próximo à janela da sala. Ao ver aquilo e ao constatar que o pássaro que cantava no galho da arvore próxima à casa poderia ser a mãe do mascotinho, ela se deparou com o conflito de ter se afeiçoado àquele pequeno ser e de saber que, para que ele fosse feliz, era preciso libertá-lo.

Ao final da crônica, a autora devolve o passarinho ao mundo dele, concluindo que o amor é um sentimento que supera o apego, e liberta. Nunca esqueci do tal texto, talvez a primeira leitura mais “adulta” que eu tenha realizado. Passados 37 anos, ainda ressoa em minha mente que o amor supera o apego, e liberta. Por algum motivo, que desconheço, a lembrança me perseguiu durante o tempo que eu tinha para escrever. Tentei pensar em algo “mais” inteligente, político, combativo para abordar. Mas apenas o aprendizado do amor, essa palavra tão banalizada, me restou. Quem escreve acaba sempre passando por isso: não dá pra se esconder.

Fico pensando no que os adolescentes que hoje têm 13 anos lembrarão de suas leituras no futuro. Num mundo tão conectado, onde as redes sociais dão acesso a qualquer conteúdo. Em que ofendemos, sem reservas, até a quem não conhecemos, chamando o cidadão de ladrão, vagabundo e marginal, sem o menor pudor. Onde o ódio que segrega planta uma caretice hipócrita. Num ambiente em que compramos novas convicções a cada cinco minutos, sem aprofundar nenhuma. Do que será que eles se lembrarão? Serão capazes de guardar uma mensagem positiva, esperançosa? E nós, o que estamos plantando, ou melhor, escrevendo para ler em nossos futuros? Estamos libertando pássaros ou aprisionando feras? #Pensa


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