Terça-feira, 20 de Abril de 2021

Penitências

Quanto mais depressa pararmos de fingir, de fazer de conta que a solução virá depois de amanhã, mais brevemente encontraremos soluções!


03/10/2020 às 12:30

A semana passou rápida, de maneira agitada e, de tudo o que vi, ouvi e li, o que mais me chamou atenção foi uma reportagem norte-americana com o seguinte título: “Não há como 'voltar ao normal', dizem os especialistas. Quanto mais cedo aceitarmos isso, melhor.” Segui a leitura e fiquei surpreso. “À medida que 2020 desliza e provavelmente infecta 2021, tente se animar com um fato desconcertante: as coisas provavelmente nunca vão ‘voltar ao normal’. (...) O perigo vem de ansiar pela normalidade novamente, em vez de tentar descobrir como lidar com o que está por vir’. (...) ‘Os políticos que fingem que o 'normal' está ao virar da esquina estão enganando a si próprios ou a seus seguidores, ou talvez a ambos’, disse Thomas Davenport’.”

Voltei no tempo para 1982, quando houve o primeiro caso de Sida/ Aids, que na época nem nome direito tinha. Inicialmente alguns da mídia tratavam como “câncer gay”, mas depois logo se descobriu que não se relacionava à orientação sexual, como muitos queriam fazer crer. Eu mesmo perdi dois professores de geometria descritiva, coronéis do Exército Brasileiro, heterossexuais e hemofílicos. Por muito tempo, contrair o vírus, o HIV, representou uma sentença de morte. Entendemos, em tese, a importância do uso do preservativo, da camisinha. Gerações inteiras cresceram e aprenderam a amar e a se relacionar com os limites impostos pelas infecções sexualmente transmissíveis, as ISTs, e pelo HIV.

Passados quase 40 anos, a Aids se tornou uma doença crônica que pode levar à morte, graças à ciência, que ainda não encontrou uma vacina, nem uma cura aplicável a todos portadores. Entretanto, há duas pessoas anunciadas pela comunidade médica mundial como curadas: o paciente de Berlim e o paciente de Londres. Atualmente, as estatísticas mostram, em dados oficiais, que os homens heterossexuais representam 49% dos casos, os homossexuais 38% e os bissexuais 9,1%. Olhando os números no Brasil e no mundo, os avanços parecem pequenos para quase quatro décadas. Ainda assim eles só foram possíveis porque cientistas, autoridades e políticos encararam os fatos, despidos de preconceitos e crenças pessoais e resolveram combater o problema.

A questão da Covid-19 não é, espero que não seja, nem de perto, tão complexa quanto à da Aids. Mas ela foi precedida pela gripe aviária, pela gripe suína, como uma espécie de avisos que novas infecções virais estavam chegando ao planeta, com gradativo aumento da gravidade. E o SARS-CoV-2, o vírus causador da Covid-19, talvez nos traga uma mensagem definitiva e intimidadora: a máscara facial é a nova camisinha, mas sozinha não será suficiente. Há vacina para a gripe H1N1, mas ela todo ano tem que ser renovada e atualizada.

Espero que em breve encontremos logo a vacina, mas desconfio que precisaremos encarar novos comportamentos que se transformem em usuais e permanentes, um caminho do meio entre o lockdown e trio elétrico no carnaval da Bahia. Também tenho a impressão que essa tão ansiada normalidade, que nem sabemos se será a mesma de janeiro de 2020, não virá integralmente nos três primeiros trimestres de 2021. Sou pessimista? Não, sou otimista informado. Quanto mais depressa pararmos de fingir, de fazer de conta que a solução virá depois de amanhã, mais brevemente encontraremos soluções! Precisamos encarar os novos paradigmas e sermos rápidos e criativos. #Pensa


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.