Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Posso falar com o senhor?

Talvez os pedintes não sejam um problema, mas uma consequência da pobreza em que grande parte da população está imergida.


14/09/2019 às 14:03

Depois da minha coluna de cotidiano em uma rádio local, na última segunda-feira, um ouvinte enviou uma sugestão de pauta: “Pedintes tomam conta do centro de Manaus, você não consegue comer nada sem que não dê algo para algum pedinte”! Acabei me interessando pelo tema, até porque fui a cinema no sábado, em um grande shopping da cidade e um pedinte me abordou. Eu saia da bilheteria, dentro da sala de espera e ele me parou: “posso falar com o senhor um minuto?”.

Não estava sujo, nem mal trajado, nem tinha uma aparência ruim, mas pedia - dentro do cinema do maior centro de compras da região do Vieralves, talvez o maior de Manaus. Aliás, quem vive o dia-a-dia daquele bairro já deve estar acostumado: na saída das farmácias, da padaria, do empório, em todos os cruzamentos. Jovens, crianças, adultos, homens e mulheres, gente de todo tipo pede. E antes que alguém fale alguma coisa: não, eles não são venezuelanos, ou de qualquer nacionalidade estrangeira. A grande maioria é brasileira, com cara do nosso povo.

Só para ilustrar: o dado mais recente da Polícia Federal dá conta de 7.164 venezuelanos residentes em todo o Amazonas, enquanto que os últimos números do IBGE mostram um desemprego de 17,7% em Manaus que, se extraídos do total da população manauara, chegam a 371.700. Lembro que no final de 2018 passei umas duas semanas indo ao prédio da Secretaria de Fazenda, para um trabalho específico e, nas horas em que ficávamos fora do prédio, o que não faltava era pedinte, e em grande quantidade. Recordo até de um que usava tornozeleira eletrônica e já se explicava de antemão, para não ser mal interpretado.

Talvez não seja o centro da cidade o problema, talvez os pedintes estejam em maior quantidade em outras áreas economicamente mais prósperas da cidade. E talvez eles não sejam um problema, mas uma consequência da pobreza em que grande parte da população está imergida!

Observem o número de imóveis vazios e/ou abandonados em áreas importantes da cidade. Pesquisem a taxa de desemprego em Manaus e na Região Metropolitana, entre as maiores do País. Com boa vontade vocês encontrarão a série histórica do dado, mostrando que isso não começou em 2019, mas já perdura há algum tempo! Não tentem desqualificar a competência do IBGE: isso não vai diminuir o problema, apenas piorar a situação. Lembrem que vocês já ouviram, mais de uma vez, ao longo dos últimos cinco anos: “no Amazonas, 80% de toda a riqueza é produzida por 20% da população”.

Depois disso tudo, liguem os pontos e tirem suas conclusões. Estamos cheios de pedintes nas ruas, e para além delas. Eles incomodam. Mas eles são apenas a expressão de uma realidade em que a raiz é outra.

Quem viaja muito pelo Brasil também já deve ter percebido o aumento expressivo da população em situação de rua. Em algumas cidades, como Brasília e Rio, os dependentes químicos estão nas principais áreas comerciais. Perguntem-se o que isso quer dizer! Mas também se questionem: será que não temos que resignificar tudo isso? Talvez o incômodo deva ganhar outro direcionamento, tirando o foco dos pedintes? A gente precisa pensar grande e adiante, até para enxergar de onde realmente nasce a pobreza. #Pensa


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