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Artigos de Domingo - 30.04.2016 30/04/2016 às 19:28 - Atualizado em 30/04/2016 às 19:29
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A morte estúpida de uma criança deve provocar uma reflexão!

Em meio a uma semana tão conturbada, nenhuma notícia me chamou tanta atenção quanto a morte do Andrezinho. André Pereira Crescenço, seis anos, filho de um autônomo com uma moradora de rua. Adotado pela misericórdia de um casal, nunca teve certidão de nascimento, nunca foi à escola. Possuia uma “Declaração de Nascido Vivo”, que perdeu validade na semana passada, depois que, durante um banho de chuva, caiu num bueiro sem tampa e acabou sendo achado morto, dias depois, no igarapé do Mindú.

Eu soube pelo jornal, na quarta-feira, quando voltei de uma semana de férias. Aquilo me tocou profundamente. Uma existência tão curta, tão repleta de desventuras. Sua sobrevivência talvez alimentasse nossas esperanças de que a vida, apesar de tudo, resiste e desmente todos os prognósticos estatísticos. Mas isso não aconteceu. Assistimos ao fim de uma vida “severina”, que a burocracia mantém numa gaveta fria do IML, pela ausência de documentos.

Chorei e achei que o mundo deveria prantear aquele acidente fatal, assim como o fez pelo garoto sírio Aylan Kurdi, de três anos, afogado na tentativa da família de escapar das misérias provocadas pelo terrorismo no Oriente Médio. Compartilhei minha dor nas redes sociais, e obtive mais de 5 mil “curtidas”( de certo, em solidariedade ao sentimento), 1 mil 200 compartilhamentos e 400 comentários. A preservação da vida ainda parece ser, aos cidadãos comuns, a principal preocupação!

Fiquei pensando em como a cidade se tornou perigosa às crianças. Um simples banho de chuva pode causar a morte. Um bueiro, uma descarga elétrica... Empinar papagaios, pela rede elétrica aérea exposta, pode, num triz, matar eletrocutado... Jogar bola na rua expõe a acidentes de carro... Senti uma imensa culpa pela infância feliz que desfrutei. Culpa pelos sorrisos ao final da tarde. Culpa pelo tempo e as possibilidades que tive e que foram negadas ao Andrezinho. Culpa pelos cuidados e atenção que recebi e que dedico aos meus.

Lamentei ao ler nos jornais, no dia seguinte, que os vereadores não chegaram a uma conclusão sobre quem foi o culpado pela morte daquela criança. Não pelo resultado inconclusivo! Mas pelo foco na culpa e não nas possibilidades de solução! Culpados talvez tenhamos sido todos nós! Será que eles, os vereadores, aventaram, ou imaginaram que seria possível, pensar em propostas para uma maior segurança da infância e da adolescência, na sua relação com o espaço urbano? Sinceramente, acho difícil. E ainda haverão de usar o fato de forma eleitoreira.

Andrezinho se foi, mas seu corpo continuará por dias, quem sabe semanas, dormindo na geladeira do Instituto Médico Legal, até que seja emitido seu registro de nascimento, ironicamente expedido após a sua morte! Ele, que nunca foi procurado pela mãe biológica enquanto vivia, foi visitado por ela. E tenho certeza que ele povoará por muito tempo minha existência, me dizendo que precisamos fazer mais, sempre mais, para a construção de uma cidade melhor. A cada olhar, e a cada sorriso de uma criança. Obrigado André! Descanse em paz.