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Crônicas de Domingo - 31 de Março de 2019


30/03/2019 às 00:00

Dona Matinta, que assina o sobrenome Pereira, de tradicional família amazonense, conta que houve época em que habitavam a Terra somente duas espécies: as cobras e os sapos. E já naquele tempo as cobras desejavam incessantemente o poder. Apesar de venenosas e ágeis no bote, rastejavam. E os sapos pulavam. Elas queriam facilidade e se queixavam constantemente. Pegar um sapo exigia muito trabalho. Eram longas horas de tocaia montada. As rastejantes ficavam exauridas.

Decididas a resolver o problema, convocaram uma famosa cobra marqueteira, repleta de “cases” de sucesso. Como estratégia, a especialista apontou a necessidade de se trazer os sapos para perto. Assim seria mais fácil. A ideia era promover festas. Convidariam todos, os embebedariam, e BOTE. E assim o fizeram. Mas na hora “H”, foi um para-pra-acertar. A atração era um grupo de sapos sucesso entre os batráquios.  Tocavam um ritmo agitado, com letras que faziam pensar. A sapolândia pulava doida. E as cobras rastejavam, tentavam, e nada. As festas foram um grande fracasso.

Iradas, convocaram então uma víbora marginal-barra-pesada, que as aconselhou: “trafiquem substâncias prazerosas, mas alucinógenas, que entorpeçam suas presas, assim será fácil dominar essa ralé”. Ideia posta em prática, o resultado foi acima do esperado. Surgiu, entretanto, uma consequência inesperada: os usuários se tornavam tóxicos, impróprios ao consumo.  Adoeciam e matavam as cobras que os consumissem.

Impacientes, e mais sequiosas de poder e de facilidades, as ofídias tentaram de tudo: campanhas publicitárias, igrejas, empresas de marketing de rede, distribuição de ranchos e outras artimanhas. Mas nada. Havia sempre um senão. Até que uma das cobras, socióloga, pós doutora, versada em cultura de massa, veio à carga com a seguinte proposta: “vamos estabelecer uma divisão entre os sapos, coloca-los em conflito entre si”. “Tiramos a atenção sobre nós”, discursava a perita “e os jogamos uns contra os outros”.

Criou-se um grande alvoroço. Mas como, perguntaram as demais, eles são muito unidos?. A resposta veio de chofre: “- Eles não são iguais, tem pele, tamanho, colocação e hábitos marcadamente distintos”. E completou: “fomentem a rivalidade e a intolerância entre os diversos grupos de sapos, façam com que eles não aceitem as diferenças entre si, de cor, de gênero, de poder aquisitivo, de opinião, de preferência sexual – isso vai os dividir, torná-los fracos e mais vulneráveis”. “Estabeleçam que nas diferenças naturais há o que é certo e que é errado, mesmo que isso não tenha nada a ver”, concluiu, “fomentem a discórdia”.

Plano traçado, as venenosas foram à luta e começaram o processo de alienação. Dito e feito. E as cobras se deram por saciadas por longos tempos. Dona Matinta conta que desde então se estabeleceram os conceitos de segregação, alienação, dominação e indústria cultural. E que talvez até hoje esse seja um “case” de sucesso entre as peçonhentas. Será já? #Pensa


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