Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Saúde X Cultura

Artigos de Domingo, 29 de Maio de 2016


28/05/2016 às 22:54

Terminamos uma semana confusa, em que nos vimos dividimos numa disputa entre “Saúde” e “Cultura”. Tudo por conta do anúncio do Governo de não realizar desembolso financeiro para o Festival de Parintins e a alguns outros eventos estaduais, em razão da crise econômica e da queda vertiginosa da arrecadação estadual. Em tempos de pouco recurso, é preciso priorizar. E ainda assim, os cortes atingiram a rede pública de saúde.

Percebi a cidade se questionando e tomando posição. Muita gente totalmente a favor de não se apoiar Parintins, favorável a se priorizar “aquilo que realmente importa”. Um amigo meu chegou a me dizer que ninguém morreria se o Festival não acontecesse. Segundo ele “tem todo ano”. Do outro lado um município inteiro, que vê o Festival, não como atividade cultural, mas como forma de sobreviver. E a polêmica se estabeleceu.

Independentemente da expressão que o Festival Folclórico de Parintins tem no cenário cultural brasileiro, dele ter se transformado numa espécie de porta-voz do Amazonas para o restante do Brasil, também vejo a questão por outro ponto de vista. Uma porção significativa da arrecadação dos cofres municipais daquela cidade, pelo menos 40%, gira em torno da movimentação que o evento provoca ao longo do ano.

Dados apresentados numa cessão de tempo na Assembleia Legislativa, extraídos de uma pesquisa da Amazonastur, dão conta de um possível faturamento estadual de R$ 100 milhões, somente nos três dias de festa. Logo, trata-se de investimento e não de gasto. Mas não teve jeito. Muitos perguntaram: porque o boi não sobrevive somente de patrocínio privado? Ele não tem a chancela da Coca Cola? Para isso, é fácil perceber que o repasse sempre foi utilizado como moeda de troca política e que a independência nunca foi estimulada ou planejada.

No resumo da ópera, a arrecadação caiu, o dinheiro é pouco, é preciso traçar prioridades. Mas a retirada do apoio a Parintins pode ser fator de queda de trabalho e renda no município, de baixa expressiva na arrecadação dos cofres municipais, no interior do Estado, onde normalmente a situação não é nada fácil. Precisamos parar de enxergar somente os bois e enxergar os cidadãos daquela cidade. Mas não, ficamos cegos com a disputa simplista entre “Saúde” e “Cultura”.

O evento, pelos números oficiais, custa R$ 18 milhões. Eu não sei dizer o que essa monta significa para a área da Saúde, mas creio que seja, lá pelas tantas, proporcionalmente muito menos do que ela representaria ao povo parintinense. Também não pude deixar de analisar a tabela de custos divulgada pelo Governo e de tomar um susto.

Do total de R$ 18 milhões gastos com o Festival, R$ 5.743.399,40, ou seja, 32%, são gastos com jurados, sonorização e iluminação (Jurados R$ 2.173.351,40; Sonorização R$ 1.680.000,00; Iluminação R$ 1.890.048,00), enquanto R$ 4.080.000,00, correspondente a 23%, são destinados aos bois (R$ 2.040.000,00 para cada). E a Prefeitura de Parintins ainda gasta R$ 500 mil com a festa dos visitantes, para trazer Anita, Naldo e outras atrações nacionais. Cá entre nós, os custos dos serviços contratados parecem altos demais.

Mas a semana acabou assim, a gente comprando a briga “Saúde” versus “Cultura”, sem conseguir analisar muito a questão por outros pontos de vista. E sem questionar muito. Não conseguimos chegar a um consenso. A única coisa que a população parece concordar é contra as medidas restritivas nas unidades de saúde. #Pensa


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