Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Sexo dos Anjos

Artigos de Domingo, 13 de Novembro de 2016


13/11/2016 às 00:00

Uma das polêmicas da semana foi a retirada, ou melhor dizendo, a “arrancada” da marquise da Loja Marisa, que fica na Eduardo Ribeiro com a Henrique Martins. O imóvel de época, restaurado em sua fachada há anos, num belo projeto do arquiteto Roger Abrahim, sofreu uma violência, uma amputação em sua fachada. Ficou feio e toda a cidade se incomodou. Foi pauta do parlamento, e nós, que por anos alimentamos uma saga modernizadora, que destruiu inúmeros prédios históricos em bom estado de conservação, agora corremos atrás do prejuízo.

Como a cidade agora reclama de suas feridas, o Implurb, aparelho municipal responsável pelo planejamento urbano, publicou uma nota de esclarecimento, informando que embargou e multou a obra. Apesar da loja ter pedido autorização daquele instituto para a manutenção da marquise, não o fez junto ao Iphan, de quem também é necessária a licença. Mas além de relatar o processo legal, a nota avança na informação e esclarece que “a marquise em questão, apesar de estar em imóvel de área de tombamento federal, não aparece em registros históricos datados de 1901-1902, a fachada sim”.

Mais adiante, o documento do Implurb fala que “a marquise, segundo registros fotográficos pesquisados, teria tido instalação a partir do início da década de 10”. E que “pelas fotos localizadas, a marquise tinha apenas a metade do comprimento que tem a atual, ou seja, pode-se entender que 50% da estrutura é um ‘falso histórico’ sem aprovação, conforme registros fotográficos do período e fotos mais atuais”. E eu acabo rindo ao constatar que, a despeito do esforço pela valorização do patrimônio histórico, ainda se faz de tudo para justificar a destruição.

Fiquei me perguntando o que seria “um falso histórico”!? Minha memória de quem acabou de completar cinquentinha me fez recordar que o Teatro Amazonas foi, por muitos anos, cinza, assim como a quase totalidade dos prédios públicos. A Praça do Congresso era dividida em quatro pedaços, passando carros no meio. O Rodway era flutuante mesmo, com os pisos das pontes que levavam até o cais em metal. E os bancos da Praça, hoje Largo, de São Sebastião eram outros. Dá para concluir que “verdadeiro histórico” ou “falso histórico” são uma questão de referência e de ponto de vista cronológico.

Apesar da nota do Implurb tentar, de alguma forma, desqualificar a marquise, ela era bonita, além de útil, numa cidade que registra, ou sol intenso, ou chuvas torrenciais. A marquise completa era até uma questão de conforto ambiental, de utilidade pública. E vamos e convenhamos: discutir essas filigranas, debater o sexo dos anjos, serve pra que mesmo? Não resolve o problema do patrimônio histórico de Manaus, mas ajuda a deslocar a atenção. E postergar uma conversa que tínhamos que ter tido há muito. Desburocratizar a área é urgente. Fazer processos mais ágeis e interativos é uma urgência. A loja pediu pra retirar a marquise para fazer manutenção, apresentou laudo que havia risco de desabamento. Entrou com pedido na Prefeitura. Mas esqueceu do Iphan. Quem está errado? A loja? Ou a burocracia? Pena que a burocracia não trate com o mesmo vigor outros casos bem piores! #Pensa


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