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Solange, Solange...

Crônicas de Domingo - 28 de Outubro de 2018 27/10/2018 às 00:00 - Atualizado em 27/10/2018 às 16:44
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Paparazzis registraram nosso encontro:Sérgio e eu!

 

Em um dos fins de tarde da semana que passou, no meu caminho de volta do trabalho para casa, encontrei o multimídia Sérgio Vieira Cardoso, a quem tenho o prazer de conhecer há muito. Serjão, entre muitas outras coisas, é procurador do Estado, dramaturgo e artista plástico – desnecessário dizer da intensidade que marca sua personalidade.

Entre um papo e outro, acabei lembrando de uma série de obras dele, expostas permanentemente no hall de entrada de um dos cinemas do Joaquim Marinho, o Cine Oscarito, na Ramos Ferreira, logo após a Getúlio Vargas. Quem descia a rampa para chegar a bilheteria dava de cara com uma dezena de quadros de arte erótica, relacionando cinema, desejo e erotismo, expondo sem o menor pudor nudez frontal, em cenas inusitadas.

Lembro de ter ido ao Oscarito na semana em que ele inaugurou, no distante 1982, se não me engano. Não me recordo para qual filme (e acredite, lembro de muitos títulos que assisti naquela sala, inclusive ET), mas trago a clara lembrança dos quadros do Sérgio adornando as paredes. Fila na bilheteria, cinema lotado, e todo mundo apreciava as obras repletas de genitálias sem qualquer espanto. Aquilo me fazia pensar, eu ainda de menor, o quão normal era o erotismo e a nudez, num Brasil que ainda se abria à democracia.

E lá se vão 36 anos. Deu vontade de rever aquelas obras. Sérgio e eu nos despedimos e fui pra casa pensando: “Imagina se aqueles quadros fossem expostos nos dias de hoje, no hall de um local que se pode chamar de público, quase quatro décadas depois?”. Acho que ia ter gente querendo interditar o cinema, em nome da “moral”, dos “bons costumes” e da “família”! Imagina a cena!

É inevitável concluir que, em algum momento, passamos por um processo de “emburrecimento”, que nos faz querer tolher as liberdades, e esquecermos completamente que tudo aquilo que torna proibido, se torna mais ambicionado e demandado pelas pessoas. Falar sobre os assuntos, informar a respeito, dar acesso a eles é sempre mais saudável que ignorá-los ou proibi-los.

Vivemos uma eleição onde a busca do novo parece a tônica. Queremos o novo, mas estamos envelhecendo, no pior sentido da palavra, quanto às liberdades individuais e de expressão. E essa minha fala não é de defesa de nenhum lado. Vivemos isso tanto pela direita, quanto pela esquerda. Senti uma enorme saudade dos anos 1980 e 1990 e tenho medo que, qualquer dia, tenhamos de volta a Dona Solange, da Censura Federal. Caso você não saiba de quem se trata, procure no Google que vai encontrar fácil.

Onde foi parar todo aquele desejo de liberdade de quase quatro décadas atrás? E se você acha que deve haver esse controle rígido e inflexível, se você é a favor da censura, tenha muito cuidado. É da lei da física: tudo aquilo que é reprimido em excesso, um dia explode de maneira destruidora. Algumas bombas se constroem assim! #Pensa