Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Um Homem de Bem

Artigos de Domingo, 10 de Julho de 2016


15/07/2016 às 00:00

Moysés Benarrós Israel, ou Moysés Israel, como era conhecido, morreu na noite da última quinta-feira, aos 92 anos. E para alguém como ele, de tantas realizações e de um legado fantástico, talvez o uso do verbo “morrer” não devesse ser permitido. Seu Moysés partiu, mas sua obra continuará entre nós por gerações. Lembro, quando trabalhava com turismo e com qualificação profissional, de fazer a ele inúmeras visitas, em sua salinha no prédio da Federação das Indústrias, lá na Joaquim Nabuco, e de me surpreender com sua capacidade de ouvir e assimilar. E mais: ele sempre tinha algo inovador a dizer! Sua idade física não parecia combinar com a idade mental.

Personagem importante da economia amazonense, seu Moysés foi um dos responsáveis pela instalação da primeira refinaria de petróleo no Amazonas, bem como pela expansão industrial em tempos de Zona Franca. Era verdadeiramente obcecado por educação. Grande parte de seu trabalho na indústria, já na terceira idade, foi dedicado à formação e à qualificação profissional, não numa abordagem estruturalista, mas com foco nas capacidades de gestão. Ele acreditava no cooperativismo como uma das ferramentas para o crescimento econômico e a distribuição de riquezas. Com um perfil diplomático e afável, desmentia a imagem do senso comum que grandes líderes são pessoas impacientes, explosivos, imediatistas e de momento. Em seu olhar cabia o tempo do mundo!

Político por natureza, no melhor sentido da palavra, era capaz de convencer pelas propostas, bem argumentadas, mas nunca o vi se vangloriando de seus feitos. Nem me recordo de tê-lo visto falando em primeira pessoa quanto às questões profissionais: sempre nós, nunca eu! E ao ter reconhecido seus méritos e sua contribuição, declarou “sou apenas um grande ajudante”. Era, verdadeiramente, um bom pastor! Nunca precisou de bandeiras polêmicas, políticas, religiosas ou morais, nem mesmo de escândalos para se destacar. Sua vida era sua obra, tão vasta quanto longa foi sua existência.

Perguntado mais recentemente como se sentia em relação à Zona Franca de hoje e à crise que ela enfrentava, declarou que sentia frustrado, principalmente levando em conta o potencial do projeto. E que vivíamos as conseqüências de “um desgoverno generalizado”. Ele se ressentia da falta de sustentabilidade das empresas do pólo industrial de Manaus. Sobre a Petrobrás e todos os escândalos, disse: “Acho que tivemos uma área de infeliz politicagem que  nos deu o resultado a que chegamos, bastando mencionar alguns maus negócios como o da refinaria de Pasadena, o da refinaria da Bolívia, cujo valor nada recebemos e o da Venezuela, um ferro velho desgastado pelo enxofre. É triste.”

Sonhava, mais recentemente, em função da legislação ambiental, em tornar realidade a plantação de mudas de pinhão manso, uma planta da qual se pode produzir um combustível, mais sustentável. Tinha por objetivo ocupar a fronteira do Amazonas, gerando atividade econômica para aquelas pessoas. Porque, para ele, a única atividade na fronteira é o tráfico de drogas. Outro sonho era a plantação de uma espécie indiana chamada neem. Ela produz um tipo de amêndoa cujo óleo é o melhor inseticida  do mundo. Onde ele havia plantado experimentalmente, os mosquitos não chegaram perto. A ideia era plantar o máximo possível, para evitar sobretudo o mosquito da dengue. Ele esperava, mesmo que aos 90 anos, conseguir.

Moysés Israel foi um grande homem, à frente do seu tempo, como raros hoje. Que ele descanse em paz e que sua obra nos sirva de inspiração. Em sua lápide deveria constar “Aqui jaz verdadeiramente um homem de bem”. #Pensa


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