Quarta-feira, 12 de Agosto de 2020

Velha roupa 

“O novo sempre vem” não é bem assim. O velho, o arcaico, o antiquado comanda o movimento contínuo há muito tempo. Tem todas os estratagemas. E tem seus herdeiros.


25/07/2020 às 10:50

A semana passou repleta de notícias aborrecidas que não dei atenção. Fiquei lembrando mesmo foi do Belchior e de suas canções. Eu não sei quantos de vocês que me leem agora conhecem Belchior, mas ele foi uma espécie de Epicuro nordestino. E se você desconhece Epicuro, sugiro procurar no Google, que não se arrependerá. Mas voltando ao Belchior, ele foi um cantor e compositor cearense que nos trazia reflexões as mais diversas sobre a vida cotidiana.

Ainda lembro da primeira vez em que ouvi a mensagem de “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida”, cantadas numa mesma faixa pela Elis. Pode ter virado clichê de música de bar, mas os versos “é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem” ainda ressoam em minha cabeça, como o fizeram há quarenta anos. Naquele tempo eu nutria a esperança do novo, diante de tantas situações que me pareciam sem sentido, injustas. Eu queria mudar o mundo e Belchior me dava esperanças.

Passadas quatro décadas, já discuto intimamente com o nosso Epicuro residente se o novo sempre vem mesmo: porque o novo se rivaliza ao velho, e o velho tem o domínio de tudo, o comando da situação. De certo que muitas novidades surgiram, especialmente nas nossas relações diárias com o planeta e nas formas de produção, mas e o novo de conteúdo, será que ele veio? A internet é, sem dúvida alguma, o novo na comunicação, democratiza o acesso à informação. Mas para a rede mundial de computadores, a velha forma de viver inventou a fake news.

Imaginem o novo que não foi a invenção da pílula anticoncepcional! Uma verdadeira revolução em nossos desejos e possibilidades. Estávamos mais livres. Mas para isso, como forma de controlar e manipular nossa liberdade, a velhacaria se apropriou da aids e depois reinventou o pecado. Um pecado novo, em que se pode odiar ao próximo, se pode desejar a morte do outro, mas ser livre é pecaminoso. Romper com as antigas  formas de viver é dificílimo. Lutamos com os poderes estabelecidos e acomodados que farão de tudo para se perpetuarem.

Na política eleitoral não é tão diferente assim. O novo é capaz de vir, ele brota do nosso desejo natural de mudança, frente às nossas insatisfações sociais coletivas. Como na canção “Velha roupa colorida”, “você não sente nem vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança em breve vai acontecer. E o que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer”. Mas essa semente do novo que brotou será alvo prioritário do arcaico sistema de castas em que vivemos. Se não for sufocado e morto, o novo terá que ser cooptado e se tornar um aliado.

Eles farão de tudo para se manterem no poder, um fazer onde os fins justificam todos os meios, sim TODOS. Haverá de se inventar mentiras e as divulgar como verdades, encontrar problemas e os transformar em escândalos, pressionar de todos os lados – afinal, foi o arcaico que colocou no poder muitas autoridades. E o envelhecido sistema se disfarça e até se renova, com novas pessoas, já que ele é uma grande oligarquia.

Não, meu caro Belchior, “o novo sempre vem” não é bem assim. O novo até pode vir, mas ele talvez não edifique, porque o velho, o arcaico, o antiquado comanda o movimento contínuo há muito tempo e ele tem todas os estratagemas e tem seus herdeiros. O novo talvez só vingue no dia em que nós nos fizermos novos. Aliás, me diga você, o que há de mais novo em sua alma? #Pensa


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