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Crônicas de Domingo - 21 de Outubro de 2018 21/10/2018 às 00:00 - Atualizado em 21/10/2018 às 09:05
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Cena de assalto a uma casa lotérica na Zona Leste de Manaus. Foto de Junio Matos.

Esquina da Rio Purus com a João Valério, às 22h05. Meio de semana e o movimento é muito pequeno. As ruas estão quase vazias. O sinal demora a abrir e os vidros do carro quase não têm insufilm. Bate uma sensação de insegurança terrível, como se a qualquer momento alguém pudesse aparecer para anunciar um assalto ou apontar uma arma pra gente. Não me recordo de ter sentido esse tipo de temor urbano antes.

O sinal abre, meu temor alivia e comento com o motorista que é tanta notícia que a gente começa a ficar mais receoso que o necessário. Taxista há onze anos, sempre no horário da noite e madrugada, ele me fala que não devo ter medo. Aqui não é comum assalto em sinais. A situação é mais complicada nas paradas do transporte coletivo, onde duplas em motos passam fazendo arrastão. Ele começa a me falar uma série de coisas que coincidem com o que dizem vários amigos policiais.

Não há dúvida que os temas segurança pública e violência urbana merecem toda a atenção possível, muito em função da rede de crimes que tem origem no narcotráfico, a matriz de quase todos os males. Mas a insegurança, ou melhor dizendo, a sensação de insegurança possivelmente seja tão viral quanto a violência. Diz-se “viral” para conteúdos que espontaneamente são divulgados por um grande número de pessoas e ganham repercussão inesperada.

Talvez a violência e a sensação de insegurança sejam virais e glamorizadas: falamos e dedicamos maior tempo a elas que o normal. Talvez seja conveniente a algumas pessoas, que tem muito a ganhar com isso. Tem quem se beneficie da vulnerabilidade do outro, prometendo proteção. E quanto maior o problema parecer, mais chances de ganho pelo lado de quem fatura, e de perdas pelo lado da maioria numérica. E a viralização e o glamour no fundo acabam sendo instrumentos de alienação e deslocamento da atenção de temas que talvez merecessem verdadeiramente ser o foco.

Segurança pública tem sido a tônica dessa eleição, nas esferas federal e estadual. Sim, temos muitos problemas, em especial com o crime organizado. A Região Norte é impactada pela tríplice fronteira do Amazonas com o Peru e a Colômbia, por onde começam as rotas ao narcotráfico no País. Aqui a violência é real, pela ausência de ações eficazes à interrupção do fluxo e ao combate ao crime organizado. Crime organizado que patrocina e “propiniza” quem muitas vezes promete proteção contra ele, mesmo por obrigação profissional. Afinal, mais importante que ser bom, é necessário parecer bom: “é necessário que um príncipe saiba muito bem disfarçar sua índole e ser um grande hipócrita e dissimulador", diz Maquiavel, na obra “O Príncipe”.

Mas o excesso de zelo e atenção à segurança pública acaba roubando a devida dedicação a temas que talvez sejam justamente a solução ao problema. Numa região metropolitana em que a taxa de desemprego da população é de 19%, enquanto a nacional é de 13,1%, as ações de trabalho e renda, e de acesso à educação pública de qualidade, seriam formas de barrar a adesão da população ao crime organizado e ao narcotráfico. Mas pouco tenho visto se falar no assunto. #Pensa