Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

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Crônicas de Domingo - 15 de Abril de 2018


14/04/2018 às 19:00

Duas semanas, desde a Páscoa, sem escrever. Tempos confusos, pessoal e coletivamente. Nesta semana, repleta de acontecimentos, dei de cara com uma notícia, no mínimo, intrigante: “Apenas 35% da população amazonense possuía, em 2017, salário fixo por meio do trabalho”. O restante, 65% das pessoas do Estado, sobrevive de outras fontes de renda: aposentadoria, pensão, mesada, aluguel e seguro-desemprego.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, traduzidos, significam dizer que, de cada 10 amazonenses, 6,5 a 7 não têm um emprego, privilégio de apenas 3,5. O Amazonas é segundo estado da Região Norte com a menor porcentagem de pessoas com renda vinda do trabalho formal. Infelizmente o estudo do Ibge não mostra a situação por cidades. Mas é certo que essa tragédia se dá bem mais no interior do Estado do que na capital. Afinal somos a capital com a sétima economia do País, blá blá blá blá blá blá. E se não for tão diferente assim, o drama é ainda pior do que pensamos.

De uma forma, ou de outra, a verdade é que temos poucos empregos e que a produção de riquezas é concentrada na mão de apenas 35% da população, ou seja 1,3 milhão de pessoas empregadas, de um total de 4,1 milhões. O advento Zona Franca, tão combatido pelos outros estados, nos garante riquezas, mas não nos garante a dignidade cidadã do trabalho remunerado, nem mesmo na capital.

E o mais interessante disso foi a reação das autoridades estaduais, sejam elas do poder público, representantes da classe empresarial, ou dos trabalhadores: nenhuma, ficaram calados, como quem não soubesse o que dizer. Aliás, elas já não vêm dizendo nada há muito tempo. Lembram dos recentes ataques à Zona Franca? Da necessidade do combate do narcotráfico na região de fronteira? Da criação de alternativas econômicas não metropolitanas à monocultura do polo industrial de Manaus? Ninguém fala nada do que realmente interessa e o enterro segue num cortejo sem direção.

Eles talvez falem muito sobre coisas vazias, desnecessárias, façam declarações de amor, e de ódio, odes ao combate à corrupção e aos valores nacionais e me pergunto: de que exatamente tudo isso adianta? De nada, simples assim. Estamos às vésperas de uma eleição quase que geral no Brasil e os cidadãos querem saber o que os candidatos propõem para a geração de trabalho e renda, à modernização das relações produtivas, ao avanço da ciência e tecnologia e ao combate ao narcotráfico nas fronteiras. E tem gente se propondo a ser eleita com financiamento de traficante de drogas e de dono de empresa de transporte coletivo. E pior, falando cidadÕES, ao invés de cidadÃOS.

Nesse Brasil maluco em que todo mundo se odeia, com o mais extremo dos sentimentos, a não ser que o outro seja um espelho daquilo que achamos que somos, o Amazonas não escapa a regra. Viveremos, pelo andar do rabecão (carruagem é ilusão) uma eleição sem projetos, que ficará na velha retórica personalista e acusatória do “eu fiz, você não fez nada, seu corrupto”. E olhando a uma média distância, tudo parece muito igual. #Pensa


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