Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Welcome to the Jungle

Crônicas de Domingo - 21.04.2019


20/04/2019 às 00:00

Que me perdoe o episódio parisiense do incêndio em Notre Dame, mas não tenho dúvidas que o fato da semana, para os amazonenses, se concentrou nas declarações do ministro Paulo Guedes sobre a Zona Franca de Manaus, em entrevista ao canal GloboNews. O trecho do vídeo está em todas as redes sociais; se você ainda não assistiu, procure pra ver. Ao falar sobre redução do IPI, foi perguntado: “acabou com o IPI, faz o que com a ZFM?”. A resposta foi simples: “quer dizer que o Brasil agora não pode ficar mais eficiente porque tem que atender...a ZFM de Manaus fica do jeito que ela é, isso não quer dizer que não vou simplificar impostos no Brasil porque senão...quer dizer, eu tenho que deixar o Brasil bem ferrado, bem desarrumado, porque senão não tem vantagem pra Manaus?”.

Não precisa nem ler nas entrelinhas, a estratégia está clara: preservarão as garantias constitucionais do modelo mas o esvaziarão, tirarão as vantagens competitivas. Há quem diga que a culpa foi da Miriam Leitão, que desestruturou o Ministro com o questionamento. O que chamam de culpa eu classifico como mérito: a pergunta certa, no lugar certo, na hora certa, para revelar uma estratégia de cozinhar em banho maria enquanto prepara outra receita. E a lógica foi a mesma adotada por Temer no polo de concentrados. Ele, Temer, até voltou atrás, parcialmente, decretou uma morte a longo prazo, mas perdemos a Pepsi Cola, que foi para outro país. Alguns apostam que a palavra final será do presidente e que não será bem assim. Alguém duvida que essa decisão está tomada e que Bolsonaro não irá contestar Guedes? Ele voltou atrás no aumento do diesel! Ou seja, estejamos prontos para tempos muito difíceis.

Nessas horas eu me pergunto que propostas temos a apresentar ao Governo Federal, para nos compensar desse golpe mortal: sim, o Parque Industrial de Manaus responde sozinho por 80% de toda a riqueza do Amazonas. Negociaremos altos investimentos em infraestrutura e linhas de créditos empresariais capazes de transformar o Estado em um dos maiores polos turísticos das Américas? Pleitearemos recursos de alta monta para Pesquisa e Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, hábeis a criar um novo parque industrial, aproveitando toda a biodiversidade, uma ZFM sustentável? Nada disso, acho que a resposta será dada pelo Governo Federal antes sequer de pedirmos alguma coisa. Bolsonaro tem falado, sequencialmente, em explorar o potencial mineral da Renca, em liberar e apoiar a mineração e a exploração agropecuária em terras indígenas, e demostrando descontentamento com as ações fiscalizatórias dos aparelhos ambientais.

Cairemos na mesma cova, nada rasa, do Pará: a exploração mineral. Lá, os investimentos são milionários e a indústria cresceu 9% em 2018, top no ranking brasileiro, enquanto a nossa ficou em terceiro lugar, com 5,2%. Os cidadãos paraenses não ficaram mais ricos, mas o aparelho estatal sim. Não houve elevação da qualidade de vida, mas de prejuízos significativos à saúde coletiva e ao meio ambiente. Lá, as cinco maiores empresas no estado são mineradoras, das quais quatro norueguesas. Depois dos episódios danosos da Vale em Minas Gerais, adivinha onde se concentra a operação da empresa?! No Pará. E talvez, infelizmente, num futuro não tão distante, no Amazonas. O que podemos fazer a respeito? #Pensa


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