Quinta-feira, 28 de Outubro de 2021

A publicidade na pandemia

Empresários, influenciadores e políticos orquestraram campanhas de terapias ditas milagrosas


Durante a grande pandemia, assistimos um festival de profissionais que passaram a opinar sobre doenças infecciosas, com a mesma naturalidade com que opinam sobre a escalação de um time de futebol, numa tarde de domingo. Isto me instigou a também mudar meu foco profissional, das doenças infecciosas para outras áreas do conhecimento, onde também sou um amador deslumbrado e contente.

Nunca estudei Marketing e Publicidade, mas não posso negar que participo disso tudo desde que nasci, como voraz consumidor. O forçado isolamento domiciliar a que fomos submetidos me permitiu assistir Mad Men, uma série sobre uma agência de publicidade, na Nova York dos anos 1960. O Marketing é uma área focada na geração de valor sobre o produto, serviço ou sobre a própria marca de um negócio, tendo como objetivo a conquista e a fidelização de clientes. A Publicidade faz parte desta promoção, criando conexão entre produto e cliente.

Aí me permito inserir reflexões oriundas de minha extensa experiência como consumidor. Médicos são uma seleta categoria de consumidores, comprando artigos de luxo com alguma frequência, e influenciando os demais. O consumo, aliás, faz parte do seu marketing pessoal. Como diria um amigo, não há como acreditar na competência técnica de um médico que chega na casa de um paciente dirigindo um Fusca demodé. Os médicos de sucesso influenciam a sociedade ao seu redor.

Há anos percebo que as ligações da minha gerente oferecem produtos vantajosos apenas para o banco. Também aprendi que quando alguém te chama, na porta de um restaurante, para comer ali, a comida não deve ser boa. Isso vale para qualquer cidade turística do planeta. Raramente um panfleto que me é dado na rua contém propaganda de um produto verdadeiramente digno do meu desejo. Assim, concluí, com todas as minhas limitações na área, que produtos ruins precisam de muito mais publicidade para conquistar o mercado.

Serviços essenciais e de qualidade não precisam ser anunciados, a demanda é seu maior aliado. A disseminação ‘boca a boca’ é mais eficiente que qualquer campanha publicitária. Durante minha quarentena na margem esquerda do Rio Negro, nunca vi empresas anunciando cilindros de oxigênio, respiradores nos leitos de UTI ou oxímetros digitais de última geração. A natural demanda por esses produtos essenciais era tão óbvia, que prescindiram de uma isca para atrair o consumidor.

Mas, curiosamente, a necessidade de promoção de drogas e terapias ineficazes e testes diagnósticos inúteis se impôs. Foi preciso que empresários de sucesso, influenciadores digitais e políticos de alta patente orquestrassem uma das campanhas mais bem sucedidas de publicidade de terapias ditas milagrosas. A eficácia divulgada era sempre de 100%, fazendo-me lembrar de uma tradicional propaganda de facas japonesas, na década de 1990, que cortavam de tomates a sapatos. No Marketing 4.0, a conectividade mudou as relações de consumo, e cada um de nós é uma agência de publicidade ambulante, na frente da tela de um smartphone.

Na pandemia, garotos propaganda bem-vestidos, com dentes brancos, como se quisessem vender uma nova marca de creme dental, gastavam metade de seu tempo convencendo o público-alvo de suas qualidades únicas. Profissionais de saúde antes desconhecidos viraram celebridades e venderam seus produtos aos milhões. Mas como aquele ator que nos convenceu a usar a esponja de aço com 1001 utilidades, ninguém veio a público reconhecer que as esponjas de aço poluíam o meio ambiente. Os erros da publicidade nunca serão desmentidos. Nenhum fabricante de cigarros pagará, no horário nobre, alguns minutos para se desculpar pelas mortes por câncer de pulmão que seu produto causou.

Depois da pandemia, talvez seja a hora de cada um voltar para o seu lugar de origem. O tempo da aventura transdisciplinar acabou. A maior distopia desta experiência macabra foi termos que gastar tempo e dinheiro público convencendo as pessoas a se vacinarem contra a maior praga que já nos acometeu. Enquanto o mundo inteiro competia por este produto, essencial para a volta da normalidade, alguns ainda queriam ser convencidos, como se estivessem na dúvida entre uma ou outra marca de margarina.

 

A imagem que ilustra este artigo é de uma cena da série Mad Men


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