Terça-feira, 13 de Abril de 2021

Ano novo?

Entramos em 2021 ainda entubados, sem oxigênio, em pânico, cansados, falidos.


Eu queria muito ter comemorado meu réveillon em paz, vestido de branco, brindando com a família, regado aos melhores espumantes. Queria ter pulado sete ondas na Praia da Ponta Negra, tomado sopa de lentilha e comido sete uvas, na hora da virada. Sonhava sair de 2020 como os pacientes graves saíam da UTI: numa cadeira de rodas, segurando um cartaz: ‘Eu venci a COVID-19’. Imaginava enfermeiros cantando pra mim e soltando balões. Mas não foi bem assim, entramos em 2021 ainda entubados, sem oxigênio, em pânico, cansados, falidos.

O Ano Novo foi, para a maioria das famílias, uma festa insossa, com pessoas tensas, ligando para hospitais em busca de informações sobre parentes em estado crítico, numa insistência em viver, a todo custo, a felicidade da noite de São Silvestre. Muitos se infectaram durante o fraternal abraço da meia-noite. Poucos se aventuraram a dar o primeiro grito de Carnaval, já oficialmente cancelado pelas prefeituras.

No momento em que revivemos a tragédia de 2020, em Manaus, parece que nada aprendemos com os erros. A face da morte trouxe de volta os mesmos e novos charlatães. Profissionais da saúde exaustos prescreveram as mesmas mandingas, pra acalmar a população aflita. Muitos repetiram os erros do início da pandemia.

Nossa memória é muito curta, e vimos planejamentos sendo refeitos do zero, quando se esperava que os protocolos antigos apenas fossem atualizados e colocados em prática, de forma emergencial. A descrença numa segunda onda nos fez retardar a implementação da vacina, o que acabou gerando uma previsível revolta popular. Um prefeito que perdeu a mãe para a doença, no mesmo dia em que ganhou as eleições nas urnas, estava sensível ao nosso drama, e tomaria posse.

Alguns ainda acham que Manaus foi o epicentro da tragédia no Brasil, mas a cidade apenas avisava, agonizando, o que aconteceria meses depois com o gigante verde e amarelo. Manaus foi um farol, um prenúncio na nova tragédia nacional. A alta exposição da população permitiu ao vírus se modificar, e um ainda mais contagioso se espalhou rapidamente pelo continente.

Cada um de nós foi importante: o médico que visitou o paciente em casa, o porteiro que acelerou a entrada do médico no condomínio, o síndico que instalou mais álcool nas áreas comuns do seu prédio, o fisioterapeuta que deu suporte nas residências, com tanques de oxigênio vazios. O atendente do hospital foi muito importante na guerra. A falta de informações às famílias deixava a todos ansiosos.

Exausto, passei a meia-noite na cama, dormindo. Sem apreciar os fogos de artifício, na sacada, recusei-me a presenciar a cena triste e improvável. No dia seguinte, um telefonema de urgência, às seis horas da manhã. Fui ao encontro do paciente. “Doutor, não estou bem, muita dor de cabeça, enjoo, boca seca”. Olho ao redor e vejo restos de um peru desossado, e muitas garrafas de vinho secas. “O senhor tem febre, tosse, dor no corpo?” Ele me responde que não. “Então fique em paz, o senhor está apenas com ressaca”.

Nesta Páscoa, precisamos celebrar, ainda de forma íntima, a ressurreição de Manaus, meses depois de um calvário que nunca será esquecido. Mas não podemos cometer os mesmos erros das aglomerações do final do ano. Estando uma hora a menos em relação ao tempo de Brasília, vivemos uma epidemia adiantada, como se o mundo estivesse girando ao contrário.


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