Sábado, 18 de Setembro de 2021

Deixa o bichinho viver

Nossos corações se enchem de um sangue novo. Dos rostos de muitos escorrem lágrimas, por podermos novamente estar ali.


Como ratos amedrontados, começamos a sair de nossas tocas, aos poucos. O medo da morte ainda nos ronda, e em um crescendo, tentamos voltar às ruas, perdidos, sem a certeza de que podemos viver plenamente. Foi assim na última terça-feira, durante uma apresentação da Orquestra de Violões do Amazonas. Mas o clima ainda é tenso no Teatro Amazonas.

Espetáculos experimentais ensaiam a volta completa da vida social, em planejamento pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa. O público agora não faz imensas filas ao redor do teatro, na esperança de conseguir um assento, em shows gratuitos. Interessados entram na internet e garantem um ingresso digital. As portas se abrem uma hora antes do início do espetáculo, para dar tempo das pessoas se acomodarem, sem aglomerações. A pequena fila tem marcas de distanciamento no chão, onde outrora uma espessa camada da farta borracha revestia a calçada, para evitar as trepidações das charretes, cujo ruído poderia desconcentrar os artistas lá dentro.

Funcionários bem treinados e mascarados nos direcionam para um totem de álcool em gel, medem nossa temperatura e nos acomodam inicialmente nos assentos da plateia, onde há cadeiras alternadas, bloqueadas com uma elegante fita de veludo. Tudo é cuidadoso para não macular o estilo do santuário. No hall que servia champanhe até para os cavalos, na véspera do ano novo, de 1896, quando foi inaugurado, há 125 anos, avisos e orientações para um espetáculo salutar.

No palco com uma barreira de proteção montada entre violonistas e percussionistas, artistas que treinavam on-line se reúnem novamente de frente para um público que enfrentou o medo e balanceou o risco-benefício, ao sair de casa. Aquele seria o último dia em que poderíamos participar de eventos sem a devida comprovação de que fomos vacinados. Artistas sobreviventes da grande pandemia invadem o palco; suas roupas sempre foram naturalmente enlutadas.

A entrada do maestro Davi é seguida de palmas. Ouvimos Egberto Gismonti. Nossos corações se enchem de um sangue novo. Dos rostos de muitos de nós escorrem lágrimas, por podermos novamente estar ali. Os acordes de Paulo Porto Alegre e Clélio Diniz mesclam o erudito e o popular. Não há como olhar para o passado e não relembrar a dor excruciante pela qual passamos nos meses pré-vacina, em Manaus. Cada um de nós na plateia chora por alguém que perdeu, e também por uma dor coletiva, em tempos de silêncio do teatro em formato de lira.

"A Gaiola e o Passarinho", de Celdo Braga, parece ter sido escolhida a dedo para nos emocionar ainda mais: "Ouça seu canto liberto, a prisão é um deserto, deixa o bichinho viver". Olhamos para o teto e vemos pintada nele a base da Torre Eiffel; e é como se estivéssemos ao lado da compositora venezuelana Elodie Bouny, criada justamente em Paris. Fechamos os olhos e queremos estar em lugares dos quais sentimos saudade. Douglas Lora preenche em seguida o resto de vazio dentro da gente. Parece que a música das nossas casas estava infectada. A música que sai daqueles violões é limpa, é nova, tem som de recomeço. Conseguimos até balançar as cadeiras com "A furiosa" de Paulo Bellinati.

E a noite se encerra com "Igapó", do vigoroso Sebastião Tapajós, influência do Estudo número 1 de Villa-Lobos. O compositor de Alenquer, no Pará, reverberou dezenas de violões da jovem orquestra de 21 anos de idade. A mata de igapó é típica da floresta amazônica. Com solo pobre, sua vegetação rasteira sofre imensamente o impacto do ciclo das águas. Sem as plantas deste ecossistema, o igapó é frágil e pouco resiliente.

Saímos dali depois de 45 minutos de música amazônica, pelas laterais do teatro, evitando encostar em outras pessoas. Como pequenos igapós, cada um de nós está mais protegido contra tudo o que tentou destruir nossa humanidade. A música dos violões nos deu de novo a esperança de seguir em frente, a esperança de dias melhores. Foi como se, no infinito ciclo das águas, estivéssemos submersos por tempo mais longo, mas enfim chegou a época da vazante, e podemos replantar alguma coisa nos nossos corações.


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