Entre Ângelo, Buy e Sarapós

Cidade do interior do Amazonas guarda lições históricas e atuais para tempos pandêmicos

Marcus Lacerda
marcuslacerda.br@gmail.com
15/05/2021 às 11:05.
Atualizado em 13/03/2022 às 15:39

Imagem: Floresta Encantada Anavilhanas Rio Cheio, de Buy Chaves

Há alguns anos passo meu aniversário em Novo Airão, no dia 5 de maio. Descobri que este dia é também feriado no município, em homenagem ao seu padroeiro: Santo Ângelo. Antes de serem destruídas pelo Marquês de Pombal, as missões evangelizadoras passaram também pelo Rio Negro, e algum padre carmelita construiu, na cidade, uma capela de madeira em homenagem ao santo, da mesma ordem. Ângelo nasceu em Jerusalém, converteu-se ao cristianismo, e começou a pregar. Na Sicília, após converter uma mulher adúltera, o respectivo amante ordenou seu assassinato. Ângelo morreu com apenas 35 anos, no dia 5 de maio de 1220. A ele inclusive se atribuiu o fim da peste negra em Nápoles.

Neste ano, uma procissão tímida, com poucos fiéis mascarados, fez badalar os sinos da nova matriz dedicada ao padroeiro, após a demolição da antiga capela. Na porta, ministros da Eucaristia distribuíam, além da hóstia consagrada, álcool em gel. Um raro dia de sol em meio ao inverno da Amazônia marcou a celebração. Por aqui passou a expedição de Jacques Cousteau, cujo contato com os botos ficou famoso em todo o planeta. Até hoje ecoturistas vêm para cá apenas para admirar os peculiares e róseos golfinhos, que se escondem no segundo maior arquipélago de água doce do planeta: Anavilhanas.

A algumas horas rio acima, podemos conhecer o Velho Airão, ruínas de uma cidade que não existe mais, exceto na memória de um morador de origem asiática, que narra com entusiasmo sobre o passado remoto, e nega a invasão da vila pelas formigas. A cultura do trabalho com madeira está impregnada em cada canto da cidade, tradição que deu certo na parceria entre o suíço Jean-Daniel e Seu Miguel, que uniram arte e sustentabilidade. Há mais de 20 anos, as peças da Fundação Almerinda Malaquias decoram as casas mais requintadas do estado, ao mesmo tempo em que dão a jovens novo-airãoenses uma profissão bíblica. O famoso estaleiro do seu Antônio Maria e um hotel de luxo construído pelo irmão Adércio, como o casco de um barco, esbanjam uma quantidade de madeira já bastante disputada no mercado internacional. As ripas de madeira nos isolam da energia ruim de fora de Novo Airão.

Descendentes de barés tecem tapetes de arumã para os turistas mais endinheirados. Tingem as fibras com urucum, breu e pau de goiaba de anta. Tramas únicas são expostas em ateliês do mundo todo. Depois de um dia exaustivo, compramos algumas garrafas de Sarapó, em um pequeno quiosque. A cerveja puro malte produzida localmente homenageia um grupo de peixes que se comunicam por meio de descargas elétricas, nas infinitas águas da região.

Em uma passagem rápida pela avenida principal, vemos a exposição inédita de Buy Chaves, o catarinense radicado nesse Airão, que organizou uma mostra exclusiva para o povo que o abraçou. No andar de cima, Helen, sua esposa parintinense, ensina jovens artistas a fazer mosaicos. Eles querem decorar os muros do cemitério, na entrada da cidade. Afinal, foram quase 30 novas covas abertas pela COVID-19. Usarão flores mais perenes, em homenagem aos mortos desnecessários. Buy pinta o que sente, em uma tela fina, com tubos de tinta. Suas telas são uma coletânea de memórias, de visões, de ondas multicoloridas que ecoam na nossa retina. Desde 2017, Buy assina seus quadros com datas futuras. Algumas estão assinadas em 2030, outras em 2088. Não sei se Buy se tele transporta para o futuro e nos trás mensagens de lá, ou se ele é apenas um artista atemporal.

Como Buy, estou cansado do meu tempo; como Ângelo, morro a cada dia, no exercício da minha profissão; e é com as Sarapós que tolero esta maldita pandemia.

 

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