Excesso de liberdade

Pandemia nos fez enxergar que não estamos ainda preparados para tanta liberdade.

Marcus Lacerda
marcuslacerda.br@gmail.com
27/03/2021 às 12:35.
Atualizado em 13/03/2022 às 15:40

O mundo tem avançado na direção de um excesso sem precedentes de nossas liberdades individuais. Houve um tempo em que a escravidão e as estruturas autoritárias de poder tolhiam completamente nossas liberdades individuais. A luta contra esse sistema arcaico nos garantiu cada vez mais direitos. Hoje podemos andar livremente pelas ruas, na hora que quisermos, e, sobretudo, emitir opiniões das mais diversas. Tik-tokers, Youtubers, influenciadores digitais falam o que querem em seus palanques digitais.

A pandemia de COVID-19, entretanto, nos fez enxergar que não estamos ainda preparados para tanta liberdade, especialmente se nossa educação é limitada e direcionada ainda pelo ódio que restou dos velhos tempos.

Protegidos por uma ideia rasa de democracia, e por um conceito de liberdade ilimitada de expressão, emitimos uma opinião sobre o que lemos, a todo instante, sem checar as informações na fonte, como fazem os jornalistas de bem. Hoje, qualquer um de nós influencia nossos seguidores, em redes sociais. Profissionais de saúde se valem da autoridade de sua formação, muitas vezes capenga, para desorientar e confundir, com uma agenda mais política do que técnica. Num automatismo nunca visto antes, curtidas e compartilhamentos velozes perfuram a redoma da verdade e causam descrédito das verdadeiras pessoas que são as referências no tema. Nem todo médico é cientista e nem todo cientista é médico. A interpretação de dados de um artigo científico precisa, sim, ser criteriosa, o que ainda é um desafio permanente na formação dos profissionais da área da saúde. Não é incomum ouvir a frase: ‘Meu Deus, mas foi um médico que me disse isso!’

A liberdade e gratuidade de gravar vídeos curtos com assertivas convincentes, sobre quaisquer assuntos da moda, me faz lembrar um ditado chinês: ‘Nunca confie em quem fala bem demais’. Que liberdade tem um político com cargo relevante de se manifestar sobre temas os quais não domina? A bajulação que o cerca, seja por cargos de confiança bem pagos, seja por tráfico de influências, poderá reforçar e multiplicar sobremaneira as asneiras que espalha aos quatro ventos, por mero conflito de interesse. Demita um assessor próximo e, no dia seguinte, ele será contrário a todas as ideias que defendia antes.

Cientistas e editores de revistas científicas têm sua liberdade naturalmente controlada por comitês avaliadores, comitês de ética e pelos seus pares, que só permitem a divulgação dos resultados de uma pesquisa em caso de coerência e rigor metodológico. Isso acontece porque cientistas com excesso de liberdade já causaram muito mal à sociedade, durante a segunda grande guerra.

Andar sem máscara, fazer aglomeração, não se vacinar, pregar o uso de tratamentos ineficazes e disseminar a desconfiança sobre temas já resolvidos é um excesso de liberdade sobre o qual não podemos mais deixar de nos manifestar. Presidentes e governadores não são mais cidadãos comuns, e cada gesto ou atitude que tomam impacta a vida alheia, ou, no caso da pandemia, a morte alheia. 

A espontaneidade e seus excessos precisam de cautela. Em meio a uma segunda onda da doença, ainda mais letal e indigna, o Brasil precisa com a máxima urgência de equilíbrio, encontrando uma melhor alternativa entre os grilhões do passado, que nos aprisionavam, e a liberdade com efeito homicida.

* A ilustração deste artigo é reprodução de uma arte publicada pelo The Telegraph

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