Domingo, 09 de Maio de 2021

Existe vida após a pandemia?

Muitos pesquisadores se envolveram com a pandemia de uma maneira tão visceral, que não sabemos o que vai acontecer com eles quando a peste for embora.


Convivemos com a peste da malária desde que o homem inventou a agricultura, intensificando seu contato com os mosquitos. Ganhou fama na Itália, onde foi associada ao mau ar (mal aria) que emanava dos pântanos, e sempre nos matou aos milhares. Com o desenvolvimento de um inseticida, o DDT, todos acreditamos que seria possível, matando os mosquitos, erradicar a malária do planeta. A borrifação maciça de DDT, de fato, contribuiu em muito para a eliminação da doença em várias áreas endêmicas. No Brasil, a extra-Amazônia se beneficiou com a gigantesca campanha de articulação internacional; hoje, a malária passou a ser um privilégio da Região Amazônica, com população muito maior dos pequenos vetores.

 

Passado o momento de euforia global, concluiu-se que a malária não podia ser erradicada, e foi adotada uma estratégia menos ambiciosa de controle, evitando aumento de casos e mortes pela doença. As maiores lideranças científicas regionais foram formadas durante a grande campanha de erradicação da malária da década de 1960, as mesmas lideranças de parasitologia, entomologia e farmacologia que nos formaram a todos os jovens malariólogos. Em 2007, uma liderança mundial na área da tecnologia e da filantropia, o casal Bill e Melinda Gates propôs uma nova campanha de erradicação da doença, sob os auspícios da própria fundação que comandava. O racional para o novo momento foi justificado pelas inúmeras inovações alcançadas nos últimos 50 anos, nomeadamente mosquiteiros impregnados com novos inseticidas menos danosos ao meio ambiente, e melhoria da saúde pública, com mais acesso a testes rápidos diagnósticos e medicações mais potentes. Nada disso existia na década de 60.

 

Surgiu então uma onda de debates acalorados entre jovens entusiasmados, muitos deles financiados pela Fundação Gates, e os velhos remanescentes da última campanha, com sucesso parcial. Ainda que as projeções matemáticas mostrassem a possibilidade de uma erradicação global em algumas décadas, pesquisadores mais cautelosos preferiram negar a possibilidade. Nesta dicotomia ideológica, vimos nascer uma nova ciência de erradicação, focada em gerar as evidências para concretamente interromper a transmissão, em contraste com estudiosos que resistiram em imaginar um mundo sem malária.

 

Como na famosa síndrome de Estocolmo, quando o sequestrado se vincula afetivamente ao sequestrador, muitos de nós aprendemos a admirar a doença contra a qual devemos, na verdade, lutar. Estudiosos das baleias-brancas do Ártico se dedicam a preservá-las, mas o pesquisador em malária deve se dedicar a fazer desaparecer seu objeto de estudo, porque é letal. Obviamente, sem malária, haverá escassez de pacientes, de parasitos e de recursos financeiros para a realização das pesquisas; aí está o paradoxo: como estudar o fim de uma doença sem os devidos recursos? Há tempos já não é mais possível pesquisar malária em locais desenvolvidos, o que obriga cientistas a se deslocarem cada vez mais para locais remotos.

 

Tenho tido a mesma preocupação com a COVID-19. Muitos pesquisadores se envolveram com a pandemia de uma maneira tão visceral, que não sabemos o que vai acontecer com eles quando a peste for embora. Muitos já começaram a sinalizar que ela nunca mais vai nos deixar, mesmo com vacinas. Há ilustres desconhecidos que viraram autoridades máximas na doença, junto à imprensa. Há milhares de publicações em revistas científicas, o que melhorou muito o currículo de alguns, antes improdutivos. Naturalmente o mundo fez uma força tarefa, incluindo todos os cientistas, mas a pergunta é quando voltaremos a nos dedicar aos velhos problemas, que não foram eliminados.

 

Um psicólogo me confidenciou: algumas pessoas estão viciadas em redes sociais, outras em álcool, mas muita gente está viciada mesmo é em COVID-19. Passam dia e noite lendo tudo o que podem sobre a doença, e acabaram se afeiçoando à besta. Na internet, pequenos bonequinhos de pelúcia em formato de coronavírus, com espículas coloridas e macias, são vendidos a preço de banana. Talvez um sinal de que o mundo estava chato demais. A violência e a destruição causadas por um vírus agitaram o cidadão comum, dando-lhe ânimo e coragem para finalmente lutar por alguma causa. Mas quando a pandemia acabar, nosso desnudamento social será inevitável. E então, haverá uma vida depois da pandemia? E como ela será?


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