Domingo, 13 de Junho de 2021

Seu nome é Gau

Ele, um profissional quase desconhecido em Manaus, e que a América passou a admirar; eu, um curioso da música, feliz de ter encontrado em meio à neve pesada que caía lá fora, um amigo, desses que a gente nunca quer perder.


Confesso que fui um negacionista. No início, achei que o novo vírus seria controlado lá pela China mesmo. Quando a COVID-19 explodiu na Itália, achei que havia um certo exagero, e que a população italiana era apenas mais velha do que a nossa. Mas ao mesmo tempo em que Manaus agonizou pela primeira vez, eu acompanhei a situação em Nova York, e foi quando percebi que algo estava errado. Manaus e Nova York foram simultaneamente vitimadas por um vírus mais letal do que todos pensávamos.

Em apenas dois dias, a Big Apple perdia o equivalente ao total do número de mortos na queda das torres gêmeas, em 2001. Revivemos em Manaus o mesmo colapso do sistema funerário de Nova York, que não conseguiu velar os mortos do terrorismo. Em abril de 2020, as cidades que eu amo sangraram juntas, e novamente não conseguiram velar seus mortos, agora lacrados.

No inverno de 2003, troquei o Rio Negro pelo Rio Hudson. Foi quando conheci Gaudêncio Thiago de Mello, filho de Barreirinha. O homem simples, e um dos maiores percussionistas do Brasil, mudou-se para os Estados Unidos durante a ditadura militar. Gravou com grandes músicos, como Dexter Payne, Richard Kimball, Sharon Isbin e Daniel Wolff. Ganhou o Grammy da música, e sempre presenteava os amigos com cópias de seus CDs. Para os mais chegados, como eu, um brinde extra: um pequeno cortador do plástico que envolvia a capa dos discos, uma tarefa árdua para quem passou por essa época.

Com Gau passei algumas viradas de ano, no seu pequeno apartamento no Queens. Ele adorava ouvir minhas histórias de especialista em doenças infecciosas e minhas experiências com malária, na Universidade de Nova York. Gau fazia a gente se sentir orgulhoso da carreira, tamanha sua admiração. Com cada objeto da casa ele tirava um som diferente. Como era professor, ensinava-nos percussão nos objetos que trouxe do Andirá. Sentava-se então ao piano, e tocávamos juntos. Ele, um profissional quase desconhecido em Manaus, e que a América passou a admirar; eu, um curioso da música, feliz de ter encontrado em meio à neve pesada que caía lá fora, um amigo, desses que a gente nunca quer perder.

Em Manaus, algumas vezes o encontrei, visitando os irmãos: Amadeu Thiago de Mello, o famoso poeta, amigo de Neruda, e Maria Júlia. Gau dava cursos de percussão na Escola de Música de Brasília, no Teatro Amazonas, e ensinava música olhando nos olhos das pessoas, cantando e sambando com elas, em um ritmo só dele. Anos mais tarde, encontrei-o já muito doente, morando em Nova Jersey, com a filha. Lutava bravamente contra o câncer, mas nunca deixou de receber a visita dos amigos. Ele conheceu meus filhos, e com eles brincava de mágica, fingindo que amputava o dedo. Depois disso, Gau nos deixou, como as folhas deixam as árvores, no outono, no Central Park.

O Amazonas não perdoou Gau por sua traição pátria. Aquele caboclo, que foi também auxiliar técnico do Botafogo, nos tempos do Garrincha, como ele sempre gostava de lembrar, não virou nome de rua, nem teve um obituário à altura da sua grandeza. Mas ele pediu pra voltar, e suas cinzas se encontraram para sempre com as águas do Amazonas. Eu, negacionista, não achei que ele poderia morrer um dia.

Para mim, Nova York sempre foi um lugar mais triste. Com amargor, Manaus e Nova York viveram a segunda onda da doença, novamente ao mesmo tempo, em janeiro de 2021. Hoje, já vacinados, os vários amigos que Gau deixou por lá, já saem de casa, e comemoram uma primavera com poucos casos de COVID-19. A cidade que nunca dorme aprendeu com seus erros. Na segunda onda, apesar de mais casos do que a primeira, menos casos fatais. Em Manaus, a cidade que dormiu, um novo vírus nos deixou ainda mais órfãos. Aqui, um grande rio, com menos pontes; lá, entre túneis e inúmeras pontes, restou a saudade de Gau, dos tempos em que podíamos viajar, rir e percutir ao lado do seu piano de cauda.

De vez em quando procuro por ele no Spotify. Entre um jazz dançante, um sambinha, um pau de barro e um pau de chuva, reencontro a voz do meu grande amigo. Ele continua o mesmo brincalhão de sempre, com suas máximas musicais, aconselhando, de forma contemporânea, os casais em quarentena: “Viver assim não vale a pena, alguém precisa me ajudar,... deixei de ser escrava,... quem cozinha não lava”.


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