Quarta-feira, 03 de Junho de 2020

Como a impressão digital virou lembrança de racionamento

Equipamento usado para emitir de carteira de identidade em Manaus me fez "viajar no tempo" até a Venezuela, onde digital era usada para limitar compras


06/03/2020 às 15:36

Às 14 horas de terça-feira, dia 3, eu estava na Policia Federal para pegar a segunda via da minha carteira de identidade que tinha perdido. Depois de dar entrada na documentação, aguardei na sala até que fui chamada para fazer a foto.  A funcionária pegou minha mão e a colocou no leitor de impressões digitais. Nesse momento o tempo parou para mim e meu coração bateu mais forte.

Eu fiz uma viagem no tempo. Lembrei de quando, nos supermercados na Venezuela, tive que colocar inúmeras vezes minha mão na “Captahuellas”, máquina leitora de impressões digitais que o governo socialista utilizava para controlar a quantidade de produtos básicos que as pessoas poderiam comprar. Era tipo a “cartilha de racionamento” de Cuba, mas digital. Um jeito moderno de limitar a liberdade econômica do povo.

A “Captahuellas” ficava nos caixas de todos os supermercados, tanto nos do governo quanto nos das redes privadas. Era obrigatório colocar o polegar da mão direita na máquina leitoras de impressões digitais antes de passar os produtos. Uma situação muito humilhante.

O governo socialista só nos permitia comprar duas unidades de alimentos a preço regulado, por pessoa e por semana. Nada de luxo: só farinha, arroz, leite, açúcar, papel higiênico, café, margarina, óleo, frango, carne, shampoo, sabonetes, absorventes e detergente, coisas indispensáveis na alimentação e cuidado pessoal de uma família. Caso você tentasse pegar mais itens do que o permitido, a máquina rejeitava sua compra.  Já pensou o que sofriam os pais com três ou mais filhos?

E não era permitido fazer compras todos os dias. O governo marcou os dias com números. O número 7 era o último número do meu cartão de identificação, então eu  podia comprar às quintas-feiras e domingos. Unicamente dois dias da semana.

Eu e muitos dos venezuelanos trabalhadores sem tempo para fazer enormes filas, éramos obrigados a acudir a revendedores, pequenos mercadinhos ou atacados informais para obter os alimentos. Pagávamos os produtos a um preço 3 ou 5 vezes a mais do fixado pelo governo ditatorial.

Sem condições

A base do problema foi o processo de deterioração da produção privada pelos controles de câmbio e de preço, as expropriações das empresas privadas que viraram improdutivas nas mãos dos funcionários do governo, sem conhecimentos nem competência para as funções que deviam desempenhar, e importações públicas ineficientes e corrompidas, que tornaram milionárias a cúpula do governo.

A voz da funcionária da Policia Federal em Manaus me trouxe para a realidade. Respirei profundo.

Infelizmente, desde janeiro deste ano o salário mínimo na Venezuela é 250.000 bolívares mais 250.000 de vale de alimentação, no total dá uns 30 reais mensais, aproximadamente. Suficiente para comprar uma caixa de 30 ovos e 100 gramas de queijo branco fresco, pela hiperinflação que assola o pais.

Você poderia se adaptar a esse tipo de controle?


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