Sábado, 15 de Maio de 2021

O que passa uma jornalista venezuelana para noticiar as ações do regime

No Dia Internacional da Liberdade de Imprensa quero lhes contar como o direito dos profissionais da mídia é censurado no meu país


Noticiar as tragédias não é fácil para jornalista nenhum. Até os mais experientes ficam sensibilizados. Ainda mais em um país sem liberdade de imprensa onde a vida e segurança do profissional da comunicação estão em risco, pelo simples fato, de cumprir com seu trabalho de informar.

A vida na Venezuela é uma tragedia constante, quando não é a escassez ou altos preços da comida, é a falta de energia, insumos nos hospitais, dinheiro vivo ou a restrição no acesso a gasolina.  Aos problemas se soma a insegurança, as terríveis consequências da hiperinflação no dia a dia do cidadão e o desrespeito aos direitos humanos.

Eu já chorei e passei mal quando atuava como repórter de Economia do jornal El Nacional na Venezuela. Era a dor que eu sentia como ser humano, de ver as situações que o povo tinha que enfrentar para satisfazer suas necessidades básicas ou desrespeito a seus direitos humanos, a injustiça e a impunidade ante os atropelos, homicídios, detenções arbitrárias e violações do devido processo legal.

Assistir e contar para os leitores que as opções para os venezuelanos conseguirem alimentos, no ano 2017 era: fazer fila por longas horas para comprar comida a preços controlados pelo Estado, o que geralmente é oferecido esporadicamente e em quantidades limitadas; ser o beneficiário de um programa social; ou comprar produtos no supermercado ou no mercado paralelo (bachaqueros) a preços super inflacionados. Não foi fácil.

Relatar que o venezuelano médio já não tem mais o poder de compra para arcar com o valor de uma cesta básica e os casos de desnutrição grave de crianças aumentavam mais de 50% por mês é muito doloroso.

Mas existia uma opção para pessoas de baixa-renda.  A distribuição de comida a um custo baixo, feita pelos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP). O programa estatal, controlado pelo Exército, em coordenação com grupos locais pró-governo, tem sido usado como ferramenta de propaganda política e controle social.

As pessoas aspirantes a obter a comida tem que preencher um formulário que inclua uma pergunta sobre se eles pertencem ao Partido do governo (PSUV). Eu tinha que contar que o governo de Maduro submetia o povo através da comida.

Depois de ver todas aquelas situações eu tinha que chegar na redação do jornal, respirar fundo, me fazer de forte e escrever tudo aquilo.

A repressão

Todas as semanas minha sorte era posta à prova. Tinha dias em que minha pauta era visitar supermercados do estado para ver como estava o abastecimento de produtos da cesta básica, entrevistar as pessoas nas filas e conhecer quais restrições estavam sendo aplicadas. Tudo em sigilo.

Cada semana eu visitava um supermercado estatal diferente para não ser descoberta. Até que um dia fui detida pela polícia do regímen, pegaram meu caderno com anotações e me forçaram a apagar minhas gravações e fotos do celular. Meu coração nunca tinha batido tão forte!

Além disso, tive que ficar numa sala gelada por horas, junto com o fotógrafo que me acompanhava, depois das forças repressoras do Estado apagarem as fotos da câmera dele.

Alegaram que não tínhamos permissão para tomar fotos nem fazer entrevistas e fomos acusados de “gerar alarme na população e alterar a paz social com notícias falsas”. Depois de muitas ameaças e terror psicológico nos liberaram.

Aquele foi um dia muito desafiador. Só de pensar que outros colegas jornalistas foram vítimas de ataques violentos ou estavam em prisão arbitraria e suas famílias ameaçadas, por eles fazerem seu trabalho, como no meu caso, me ajoelhei para agradecer a Deus pela minha liberdade.

A vida da gente

O meu colega fotógrafo se virou e conseguiu esconder a memória portátil da câmara com todas as fotos. Eu tinha todas as entrevistas na minha cabeça, assim como a descrição da condição do local, a ausência de papel higiênico, fraldas, açúcar, arroz, leite, farinha, azeite (óleo) e quase todos os produtos da cesta básica.

As prateleiras permaneciam vazias ou com um único produto, os freezers sem carne ou frango e a maioria dos carrinhos dos clientes quase vazios, apenas com 2 ou 3 produtos nas filas dos caixas. O desgaste do povo que depois de pagar tinha que enfrentar outra fila na saída, dessa vez para a conferência da nota fiscal com os produtos nas sacolas, para evitar furtos e a humilhação de serem tratados como pilantras.

O regime Chavista está há 21 anos no poder, o agravamento da crise política e econômica no país esteve acompanhado da intensificação do autoritarismo e por uma verdadeira caçada aos jornalistas que cobriam as manifestações contra o regime.

O número de pessoas mortas e detidas em protestos é desconhecido, a maioria dessas prisões foram feitas sem flagrante delito, foram presas porque estavam manifestando publicamente ou somente pelo fato da identificação com a oposição, mesmo sem ter participado das passeatas.

Pessoas presas foram submetidas a atos de tortura, violência sexual e tratamento humilhante. O Estado não garantiu o devido processo legal, bem como não realizou investigações sérias para determinar responsabilidades por atos de violência.

Foram sérias restrições ao direito à liberdade de expressão, que incluem censura e fechamento de muitos meios de comunicação, ataques a jornalistas, e criminalização daqueles que expressam opiniões políticas contrárias ao governo.


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