Domingo, 31 de Maio de 2020
RELATO

Amazonenses no exterior falam de solidão e pesadelo causados pelo coronavírus

A Crítica colheu esses relatos e mostra que, mesmo na dificuldade, o sentimento é de superação de quem está do outro lado do mundo



WhatsApp_Image_2020-03-24_at_17.34.56_C1BFC42D-4490-41B6-A00B-88B2A3B2A82B.jpeg Foto: Arquivo pessoal
25/03/2020 às 15:17

“Estamos todos confinados na Espanha, unidos por uma única causa: salvar a humanidade desse vírus devastador. Aqui até o exército foi pras ruas para controlar os poucos que saem de casa”. As palavras dramáticas são da comercial especialista em vendas e marketing amazonense Romyne Novoa, 48, que mora há cinco anos em Santiago de Compostela, na Espanha, pais que aparece em quarto lugar em número de casos de pandemia do novo coronavírus (Covid-19), atrás de Itália, China e Estados Unidos.

Assim como ela, outros amazonenses ou pessoas de outros Estados que residiram em Manaus relataram que os momentos atuais são de gestão e aflição pela chegada do vírus que mudou o comportamento de todo um Planeta. A Crítica colheu esses relatos e mostra que, mesmo na dificuldade, o sentimento é de superação de quem está do outro lado do mundo.



Na Espanha, o governo determinou confinamento. “O que estamos vivendo aqui ninguém esperava. De uma hora pra outra em 10 de março fecharam os bares, restaurantes e todos os estabelecimentos comerciais. Só abertas farmácias, supermercados e nada mais. Só podemos sair de casa pra comprar medicamentos, comida e voltar. Nunca vivi isso na minha vida. As medidas são compreensivas, mas nos pegaram muito de surpresa. Estamos trancados em casa e confinados até o final do mês, mas achamos que isso vai se prolongar. A cidade stá completamente vazia, uma cidade fantasma, sem ninguém. É impressionante”, relata ela. 

Lá, como as máscaras higiênicas estão em falta, muitos usam cachecóis em volta da boca e, chegando em casa, os lavam. Também é comum o uso de luvas descartáveis e evitando levá-la ao rosto.

“Todos saem de luvas, com medo. O álcool em gel está esgotado em todos os supermercados. Temos de fazer reservas nas farmácias”, explica a especialista em vendas, que mora com o irmão, a cunhada e o afilhado.

Santiago de Compostela é a capital da região de Galiza, no noroeste da Espanha, e é uma cidade conhecida como ponto culminante da rota de peregrinação dos Caminhos de Santiago, e o suposto local de sepultamento do apóstolo bíblico São Tiago.

“Há peregrinos com relatos, voltando de lá. Pessoas da França, por exemplo. A cidade turística está desabitada”, ressalta Romyne Novoa.

Ela acha que as ações foram feitas de forma tardia na Espanha e muita coisa poderia ter sido evitada. “Chegou um pouco tarde. Se antes a Itália tivesse se fechado antes talvez se evitasse a propagação do vírus. Os Estados Unidos fecharam cedo, bem como o Brasil”, destaca ela. 

“O sentimento que temos é de medo por conta do desconhecido, porque não sabemos o que vai acontecer no futuro. Mas todos temos fé em Deus de que tudo sairá bem. E se todos juntos tomarem os mesmos cuidados. Ansiedade também, porque queremos que isso tudo acabe logo. O atendimento médico é o mesmo pra todos e não conheço nenhum brasileiro que esteja infectado, mas o atendimento será igual, sem dúvida nenhuma. Vamos confiar em Deus, Arcanjo Miguel e em Maria que vamos sair dessa”, salienta.

“As pessoas têm que tomar consciência e é preciso prevenir antes de acontecer o que está ocorrendo aqui na Espanha. É preciso se ter consciência que não é uma simples gripe. As pessoas têm que oobedecer as autoridades e não brigar com elas”, orienta Romyne.

A cunhada de Romyne, a advogada Ana Beatriz Ritta Novoa Silva, 38, foi quem começou a chamar a atenção de todos da família na Espanha sobre o vírus, se informando de tudo e praticamente prevendo a situação atual.

“Essa pandemia não estava sendo esperada com essa grande proporção. Mas segundo o que eu estudava e acompanhava na Internet, através da Organização Mundial da Saúde (OMS) esse vírus é traiçoeiro, com contágio maior e rápido. Na Itália, as pessoas não estavam acompanhado e nem se preveniram. Aqui, na Espanha, as pessoas seguiram as ordens da OMS", destaca a advogada.

Ela acha curioso e bonito que, diariamente, às 18h e 19h, as pessoas nos imóveis aplaudem em prol dos médicos e trabalhadores dos hospitais.

Para ela, tudo é trágico e devastador por conta das mortes e do isolamento total e distanciamento das famílias, mas há a esperança por dias melhores. E uma constatação positiva em meio a tanta tensão: “Essa pandemia fez com que muita enxergasse que é preciso primeiro olhar para si e ajudar o próximo”.

Filho nos Estados Unidos

A pernambucana Josely Fahrendorff morou durante vários anos em Manaus e há 11 anos reside nos Estados Unidos no Estado de Arkansas, mais precisamente na cidade de Bella Vista, condado de Benton.

Sua casa fica a 15 minutos de carro do trabalho em uma rede multinacional de lojas de departamentos. Em paralelo, trabalha com entrega delivery (serviço que se popularizou com o advento da Covid-19).

Segundo ela, no relatório oficial divulgado obre o vírus, o Estado do Arkansas tem entre 51/100 casos confirmados. Nos Estados Unidos o número total de infectados quando A Crítica a entrevistou era de 15.219 casos, com 201 mortes.

No serviço de delivery ela conta que causa estranheza, mas já se acostumou, ao pedido que alguns clientes norte-americanos fazem que ela deixe a comida no chão para eles pegarem de lá. “Eles não querem contato nenhum”, diz ela.

Já na rede de lojas, Josely explica que a grande procura atual fez com quem o local anunciasse a contratação de novos funcionários apesar de haver muitas prateleiras vazias. “Mas há reposição de estoque a todo tempo e o horário ao cliente mudou: agora é de 6h às 20h para dar tempo de repôr os produtos”.

“A situação no estádio onde eu moro ainda não é tão alarmante, mas já fechou quase tudo. Mas aqui, como aí também no Brasil, muito gente acha que está de férias e vai pros parques, pro supermercado que um dos poucos locais abertos, e com crianças. Muito ridículo!”, critica ela.

“Talvez aqui não esteja pior porque já são duas semanas de escolas fechadas. Restaurantes e algumas empresas. Estamos esperando para ver como vai ficar as coisas”, disse a pernambucana/amazonense.

A expectativa dela é positiva, apesar do cenário sombrio. “Acho que as coisas vão melhorar porque o número de casos já diminuiu na China, onde já conseguiram parar por lá, e já estão surgindo remédios como esse da malária (que ainda estão sendo testados), e logo, logo acho que vão descobrir uma vacina. Eu acredito que logo, logo, tudo isso vai passar. Infelizmente muitas pessoas não estão ligando pra isso, com algumas delas indo para as ruas e pensando que estão de férias. Isso é aqui, nos Estados Unidos, mas também no Brasil e em outros lugares, com exceção de onde está mais crítico”.

Mãe de um casal, ela fala que dfica preocupada com ambos no Brasil. “É claro que eu fico preocupado pois estou longe deles. Se eles ficarem doentes eu não sei o que vou fazer. Fica complicado, e eu fico com medo”, declara ela.

Filho em Manaus

Um dos filhos de Josely que está em Manaus é o músico carioca Yargo Azaro, que conta entrar em contato com a mãe sempre para ficar informado da situação.

“Sempre que possível entro em contato com a minha mãe, que mora nos Estados Unidos. Pergunto se ela está bem e peço para que tenha muito cuidado com esse vírus tão perigoso. Nesse momento de pandemia, o mundo todo precisa estar atento às precauções que devem ser tomadas para evitar piores consequências”, disse ele., para quem a conscientização da população é essencial.

“Acredito que quanto mais pessoas se conscientizarem de que é preciso fazer a sua parte para que possamos passar por esse momento de calamidade, mais rápido poderemos voltar a ter nossas vidas como costumavam ser”, disse o músico que, com a proibição da abertura de bares e restaurantes em Manaus diz gastar o deu tempo de quarentena conversando com amigos e outros familiares.  

“Como músico, a decisão do governo de encerrar todas as atividades de bares, restaurantes por tempo indeterminado me afetou muito. Não tenho como exercer a minha profissão, portanto não tenho como me manter como gostaria mas, como cidadão, eu entendo que é algo super necessário. Ninguém quer passar por isso, mas é preciso tomar essas medidas extremas para que consigamos reduzir o avanço dessa doença”, comentou o músico esclarecido.

Blog: Raquel Ohana, 67, amazonense em Lisboa, Portugal

“Aqui em Portugal estamos seguindo as orientações do Governo.  Estamos em casa. Distanciamento social de 2 metros. Os idosos só devem sair entre 8 e 9 da manhã. Os bombeiros voluntários e autoridades fazem ronda para confirmar o recolhimento. Aqui estamos sob controle graças a Deus! O principal é ficar em casa e lavar as mãos conforme orientação.  Os trabalhos que podem ser feitos a distância, ficam em casa e os que são necessário que seja presencial, fazem rodízios. Os aeroportos, portos, fronteiras, estão sob controle. É constante a orientação que só saiam de casa para irem ao supermercado e farmácia. Hoje tivemos sol e alguns não cumpriram as recomendações da Direção Geral da Saúde, mas, já está tudo resolvido”.

Repórter de A Crítica

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