Segunda-feira, 10 de Maio de 2021
The Lancet

Cientistas usam Manaus para alertar sobre variantes de Covid-19

'The Lancet' publicou estudo de 23 cientistas. Eles apontam que as festas de fim de ano aceleraram a disseminação do vírus, mas não explica por si a alta de hospitalizações, que vem acompanhada de novas cepas e linhagens com potencial de serem mais infecciosas



covid_43614EA4-E1CB-41B0-BC79-D03A0DF148DF.jpg Foto: Reprodução/Internet
28/01/2021 às 07:50

Cientistas de pelo menos cinco países se reuniram para tentar responder uma das perguntas mais inquietantes sobre o atual cenário da pandemia em Manaus: porque a capital se vê diante de um avassalador aumento de casos, internações e mortes causadas pelo novo coronavírus nove meses depois da primeira onda de 'ataque'. O resultado do estudo foi publicado ontem (27), pela revista científica britânica The Lancet, uma das mais prestigiadas publicações de medicina do mundo.

Com o título "Ressurgimento do covid-19 em Manaus, apesar da alta soroprevalência”, a publicação é assinada por 23 cientistas, incluindo o Dr. Henrique Pereira, professor da Universidade Federal do Amazonas, e um dos organizadores do Atlas ODS, uma das principais referências sobre a pandemia no AM.



Conforme o estudo, as festas de fim de ano aceleraram a disseminação do vírus, mas não explica por si a alta de hospitalizações, que vem acompanhada de novas cepas e linhagens com potencial de serem mais infecciosas, e que só agora são investigadas a fundo. O grupo também aponta para a necessidade de que as vacinas produzidas devam considerar variantes como encontradas em Manaus.

A primeira explicação dos cientistas para o atual cenário na capital é que a taxa de soroprevalência de 76%, que é detectada em pessoas que já foram infectadas e produziram anticorpos contra o vírus, teria sido superestimada em junho, quando a capital começou a registrar uma queda nos casos e ampliou o relaxamento. De acordo com o estudo, essa taxa seria de 52%. Ou seja, pouco mais da metade da população foi infectada e teve resposta autoimune neste período. 

Com a maior circulação de pessoas nas festas do período festivo de Natal e Ano Novo, houve uma ‘mistura de infectados e indivíduos suscetíveis’, que ainda não tinham sido contaminados, argumentam. O estudo utilizou dados da Fundação de Vigilância em Saúde que apontam uma queda de novos casos e mortes entre maio e novembro do último ano. 

Os cientistas explicam que mesmo atingindo o índice de 52% de soroprevalência, o aumento de casos e internações em Manaus de maneira abrupta ainda não é totalmente justificado, já que a taxa fica na média do limite de imunidade populacional importante para evitar um surto maior’, é estimado em 67%.

Imunidade contra o tempo

O segundo fator é que apesar do índice de 'novos contaminados estável' até dezembro, o tempo decorrido desde a primeira onda, em abril do último ano, pode ter contribuído para a perda de proteção na imunidade coletiva.

Os cientistas consideram um estudo do Reino Unido que indica que reinfecções por Covid-19 são mais comuns de ocorrer seis meses após ter sido infectado. No entanto, a maioria das infecções em Manaus ocorreram 7–8 meses antes da segunda onda em janeiro de 2021; isso é mais longo do que o período coberto pelo estudo europeu.

"Os anticorpos gerados na primeira infecção talvez não durem muito tempo, e, em dezembro, uma porcentagem maior da população estaria desprotegida", diz trecho do estudo. 

Além da possível perda de proteção devido ao longo tempo de exposição, os cientistas identificaram um terceiro fator que ajuda a explicar o cenário atual: a nova linhagem identificada como P1, descoberta no dia 12 de janeiro em Manaus, e P2, possuem proteínas capazes de burlar o sistema imunológico e ignorar qualquer rastro de anticorpos que foram produzidos na primeira infecção. 

Neste ponto, os cientisas destacam a necessidade de um acompanhamento mais amplo dos laboratórios que produzem vacinas, para que incluam essas variantes no sistema 'central' dos imunizantes, e apliquem, principalmente, em regiões que possuem a circulação de linhagens, cepas e variantes do Covid-19, capazes de se 'camuflar'.

Variante mais infecciosa

Conforme o estudo, a variante P1, encontrada em Manaus, é mais infecciosa para o atual período, já atingiu uma frequência elevada (42%, 13 de 31) entre as amostras de genoma obtidas de casos Covid-19 em dezembro de 2020, mas esteve ausente em 26 amostras coletadas entre março e novembro de 2020.

 Até o momento, pouco se sabe sobre a transmissibilidade da linhagem P.1, mas ela compartilha várias mutações adquiridas independentemente com as linhagens B.1.1.7 (N501Y) e B.1.325 (K417N / T, E484K, N501Y) que circulam em Reino Unido e África do Sul, que parecem ter aumentado a transmissibilidade. 

Os cientistas concluem que as linhagens que circulam na segunda onda em Manaus podem ter transmissibilidade inerente mais alta do que as linhagens preexistentes que circulam na capital, e deixam um alerta para a comunidade científica e governos para que alinhem ações que possam conter variantes da doença, e que cidades deverão começar a se preparar para cenários semelhantes à segunda onda da pandemia como acontece em Manaus. 

"Dados de rastreamento de contato e investigação de surtos são necessários para entender melhor a transmissibilidade relativa desta linhagem.Por esse motivo, as características genéticas, imunológicas, clínicas e epidemiológicas dessas variantes do SARS-CoV-2 precisam ser investigadas rapidamente", finalizam.

 

 

 

 

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