Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
AMAZONAS

Com 154 casos e 12 mortes, indígenas apertam isolamento social entre aldeias

A área com o maior número de casos de coronavírus entre indígenas é o Alto Solimões, com 100 pacientes. Algumas aldeias têm adotado o “lockdown” (quarentena total) desde março deste ano



show_show_14_C8F4A581-0C0D-4D8A-97A7-5838A8041DAC.jpg Foto: Arquivo
13/05/2020 às 14:50

Com o avanço do novo coronavírus (Covid-19) no interior do Amazonas, a pandemia tem preocupado cada vez mais as comunidades indígenas. No último boletim epidemiológico da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), entre os índios aldeados, havia 154 casos confirmados e 12 mortes.

A área com o maior número de casos de coronavírus entre indígenas é o Alto Solimões, com 100 pacientes. Algumas aldeias têm adotado o “lockdown” (quarentena total) desde março deste ano.



O coordenador distrital do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSei) Manaus, Mario Ruy Lacerda, informou que diariamente a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde, passa orientações aos sete DSeis do Amazonas sobre como combater o novo coronavírus (Covid-19) em terras indígenas e qual procedimento adotar com os casos confirmados entre eles.

“Só no DSei Manaus há 29 casos confirmados, nove suspeitos e 21 pacientes recuperados. Há também duas mortes em investigação. Um ocorreu em Autazes, da Aldeia Trincheira, e outro indígena oriundo do Rio Preta da Eva faleceu em Manaus”, informou Lacerda.

O DSei Manaus atende aproximadamente 29.506 mil indígenas em 11 municípios e 19 polos base, que abrangem os municípios de Manicoré, Borba, Nova Olinda do Norte, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Autazes, Manaquiri, Manacapuru, Urucará, Anamã, Beruri, Novo Airão e Careiro Castanho. Os indígenas estão distribuídos em 235 aldeias, onde são atendidos por cerca de 13 médicos e 54 enfermeiros.

“Os próprios indígenas estão conscientes de que há a necessidade do isolamento das aldeias. Os caciques dessas comunidades estão promovendo barreiras sanitárias. Muitas aldeias não têm permitido a entrada de profissionais de saúde vindo de outros lugares – exceto os que já atuam nas comunidades”, disse.

Segundo o protocolo adotado pelo DSei Manaus, o acesso de profissionais não-indígenas às aldeias tem sido feito apenas em casos de extrema necessidade. Para isso, é preciso que, além da autorização das lideranças das comunidades, o profissional de saúde declare, em documento, que não apresenta sintomas suspeitos, que estava em isolamento social e que fez o teste rápido para a Covid-19 (com resultado negativo) – além, claro, de portar os equipamentos de proteção individual.

Algumas comunidades que estão há pelo menos dois meses com acesso restrito são as aldeias Iguapenú, Ponta das Pedras, Moiraí e São Félix, localizadas no município de Autazes, distante 113 quilômetros em linha reta de Manaus.

Hospital de campanha

Desde a primeira quinzena de abril, o Governo do Amazonas tem anunciado a construção de um hospital de campanha em parceria com o Governo Federal voltado ao atendimento de indígenas infectados pela Covid-19.

Mês passado, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que assinaria a ordem de serviço de uma unidade para o Amazonas com 200 leitos adaptáveis para unidades de tratamento semi-intensivas, com tubulação e suporte para respiradores.

Conforme a Secretaria de Estado de Saúde (Susam), por meio de assessoria, durante a visita do ministro Nelson Teich ao Amazonas, semana passada, ficou acordado que uma ala específica será implementada para atendimento aos indígenas no Hospital de Combate ao Covid-19 Nilton Lins, localizada na zona Centro-Sul de Manaus, além de reforçar as unidades hospitalares do interior. As medidas estão sendo articuladas com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde.

“Houve uma reunião com o ministro da Saúde, o governo estadual, a Sesai e os representantes dos Dseis em que ficou acordado que haveria uma ala no Hospital Nilton Lins para 50 indígenas, não somente os aldeados como também aqueles que vivem em contexto urbano. Sobre prazos para o início das obras, a Susam está elaborando uma proposta para o Ministério da Saúde para que haja uma descentralização de recursos para a instalação e a adaptação das alas previstas”, informou o coordenador distrital do Dsei Manaus, Mario Ruy Lacerda.

Consultada pela reportagem do jornal A CRÍTICA, a Sesai não informou, até o fechamento desta reportagem, quando as obras do hospital serão iniciadas. O Amazonas tem a maior população indígena do País, com cerca de 170 mil pessoas, segundo o Censo de 2010.

Segundo levantamento da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), a população indígena aldeada (aqueles que vivem distantes das áreas urbanas) é de aproximadamente 275 mil no Amazonas. O atendimento médico deles é responsabilidade dos Dseis, coordenadas pela Sesai. Ao todo, há sete Dseis espalhados pelo Amazonas. Cada um deles com autonomia de gestão administrativa e financeira.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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