Sexta-feira, 03 de Julho de 2020
ENTREVISTA

Contra covid-19, indígenas do Alto Rio Negro pedem ampliação de enfermarias

Em entrevista ao A CRÍTICA Marivelton Baré, presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, declarou que em São Gabriel da Cachoeira, que reúne a maior população indígena do país, há subnotificação de novos casos de covid-19 e de óbitos pela doença



1-121_CEF71ECA-4742-4BEC-9DC7-A8469F41B79D.jpg Foto: Reuters/Bruno Kelly
24/05/2020 às 09:37

O novo coronavírus (covid-19) é uma realidade nas aldeias indígenas e ameaça real às populações tradicionais. O vírus já atingiu 44 povos indígenas sendo o Amazonas o Estado que concentra mais óbitos no país, mais de 70 mortes, segundo levantamento da Articulação dos Povos Indígenas. 

O presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), Marivelton Barroso, do povo Baré, declarou que no Município de São Gabriel da Cachoeira, que reúne a maior população indígena do país, há subnotificação de novos casos de covid-19 e de óbitos pela doença e que diante da demora do poder público o socorro vem de doações de alimentos e equipamentos de proteção.



Em entrevista ao A CRÍTICA Marivelton Baré comentou sobre o avanço do vírus nas comunidades, a reação do povos tradicionais ao inimigo invisível, o uso de ervas medicinais para tratar pessoas com sintomas da covid-19 e o projeto de lei de regularização de terras, dentre outros pontos. 

A pandemia está avançando nas aldeias?

É uma questão que tem nos preocupado bastante com a propagação muito rápida. Já tínhamos oito casos confirmados em comunidades indígenas de São Gabriel da Cachoeira e esse número aumentou. Pessoas testaram positivo na comunidade abaixo do município, teve em uma comunidade na foz do rio Içana mais dois casos e outra comunidade está praticamente com todos os parentes sintomáticos, agora isolados e devem testar positivo também. Enquanto isso na fronteira com a Colômbia, no distrito de Iauaretê, já confirmou caso. No distrito de Pari Cachoeira tivemos dois óbitos nas comunidades indígenas e a preocupação é também com a falta de infraestrutura e preparação das equipes para atender toda essa demanda de alto risco dos nossos parentes e indígenas e da baixa imunidade que têm. 

 Como está a situação em São Gabriel da Cachoeira?

A contaminação comunitária em que na segunda-feira foram quase 343 novos casos positivos só na cidade e porque não tem uma testagem em massa. Se tiver os casos podem chegar a 700. Buscou-se limitar os serviços e a população de frequentar as ruas, além do decreto que proíbe o fluxo entre comunidades e a vida na cidade. Montamos duas barreiras sanitárias em pontos estratégicos, ambas com apoio do Exército, uma fluvial  abaixo de São Gabriel e outra acima que dá acesso a quatro calhas do rio, na comunidade ilha das flores, e mesmo assim não foi suficiente para que o vírus não chegasse às comunidades. Pessoas acabam viajando de uma forma escondida e dando um jeito de passar por essas barreiras.

E em outros municípios do Rio Negro?

Entramos em contato com o Ministério Público Federal pedindo que pudesse ser notificado o gestor do município para proibição do fluxo entre comunidades e as cidades de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. Estamos recebendo muitas reclamações e denúncias através da comunicação de radiofonia dizendo que estão chegando muitas pessoas nas comunidades e concentrando pessoas que nem moravam lá e tem um alto índice de contágio lá. Santa Isabel também precisa de teste em massa porque não passam de sete casos positivos e pelo alto índice de síndrome gripal e sintomáticos. Aqui em São Gabriel que foram tomadas providências os casos já estão aparecendo um atrás do outro nas comunidades, imagina lá que o fluxo está aberto. Mas neste momento estamos lidando com uma pandemia que não tem uma cura absoluta e um remédio. Em Barcelos, a contaminação é comunitária, os casos estão aumentando a cada dia e por mais que tenha um hospital de campanha, mas isso não requer que outras medidas protetivas deixem de ser tomadas. Um pessoa que era da cidade, foi para comunidade e testou positivo. Essa ida compromete as comunidades indígenas a ter esse contato e favorece a propagação do vírus. Ninguém está preparado para isso.

Quais dificuldades estão sendo vivenciadas no combate ao vírus?

Tem muita coisa que precisa ser acelerada, sobretudo, a atuação das equipes com EPIs e insumos necessários para atender a população como um todo. Hoje está uma carência muito grande. A única unidade hospitalar de São Gabriel da Cachoeira dispõe de 14 respiradores sendo que não tem UTI. Os casos são muito superiores para 14 respiradores e leitos. Estamos tentando buscar via DSAI, SESAI, CNJ junto com os permissionários da saúde e o MPF para implantar enfermarias em comunidades para servir aos casos leves na população indígena, que vai surgir, para agir de imediato sem remover todos para o núcleo urbano porque sabemos que não vai dar conta. A situação é caótica que estamos vivendo no alto Rio Negro.

O que mais preocupa?

Não há uma preparação das unidades de saúde. Se nem nos núcleos urbanos imagina nas comunidades em que os costumes indígenas são diferentes. Sempre estamos no coletivo, juntos, confraternizando e também temos a nossa própria medicina tradicional. A maioria dos contaminados em comunidades indígenas se tratou com medicina tradicional própria porque se for esperar as equipes poderem chegar vai morrendo ou ficando pior. Até chegar uma notificação de que em uma comunidade tem alguém passando mal leva algum tem e tem que considerar que a nossa região ainda tem parentes indígenas de recente contato. É o nosso maior temor. Tem a especificidade cultural do Alto Rio Negro e tomar cuidados para que as orientações e a conscientização seja de acordo com o nosso dialeto que são 16 línguas no território todo, sendo apenas quatro oficiais.

Como se deu o isolamento e a transmissão das medidas de prevenção nas aldeias?

É um fator bastante complicado. Isolar-se é sentir-se preso porque nas comunidades estamos no bem viver, no dia a dia da agricultura, pesca, atividades coletivas e naturais. No primeiro momento questionou-se por que é preciso fazer isso? É obrigado?  E toda uma adaptação das línguas para entender o vírus, a importância de ficar em casa, e porque uma comunidade inteira não pode deixar que outros cheguem. Tem que ser a partir daquilo que interpreta e dar sentido ao que é essa doença. Em algumas comunidades, em que nossas equipes puderam ir antes da confirmação de caso positivo no município, se isolaram plenamente após as orientações colocando placas que não estão recebendo visitas por causa do coronavírus e que está proibida a chegada de pessoas. Outras tivemos dificuldades porque estão mais distantes, quase na fronteira, mas hoje é um alerta geral. Enfrentamos um outro fator que na região do Alto Rio Negro tem o costume de ir aos centros urbanos para comprar mantimentos e insumos da comunidade. Estamos fazendo em conjunto com o ISA, Funai a distribuição de alimentos para apoiar a segurança alimentar das comunidades. Já entregamos 315 cestas básicas para 350 famílias Yanomami. Estamos tentando que a COIAB acelere e chegue mais 17 mil cestas, um complemento às atividades agrícolas de caça e pesca.

Como avalia a forma como realizada o pagamento do auxílio emergencial?

Não ajudou no controle da situação. Todo programa pensado para Amazônia e para os territórios indígenas tem que considerar as especificidades locais e culturais. É o que ficou faltando. Como deixar os nossos parentes receber em uma única lotérica da cidade e em uma contaminação comunitária a solta. Viola as orientações de saúde porque gera aglomeração, filas e o risco social da população vindo para cidade. Entramos com um pedido no Ministério Público Federal que recebeu um parecer favorável prorrogando e estendendo o prazo para receber o auxílio. Da mesma forma para mudar a forma de cadastro para contemplar a população indígena e a garantia de que de fato esse recurso vai chegar na ponta e eles serão beneficiados. Teve dias que a fila chegou a 1.500 pessoas, é muito arriscado.

O que pensa sobre o lockdown adotado em São Gabriel da Cachoeira? 

Praticamente é uma atitude que deveria ser tomada em todos os outros locais não somente no Alto Rio Negro. É através dessas medidas restritivas que tem um alarme muito maior para funcionar como medida de contenção. Se São Gabriel da Cachoeira não tivesse adotado teríamos muito mais casos e números mortes do que está se vendo agora. A sociedade também tem que contribuir com isso porque em parte muitos não contribuem.

 Como avalia a atenção dada pelo governo federal?

Com muita morosidade crítica. Poderia ter sido melhor esse preparo para atendimento, prevenção  e combate para o coronavírus não chegar aos territórios indígenas não somente do Alto Rio Negro. O Alto Solimões também enfrenta o problema do contágio e estamos indo quase no mesmo caminho. Deveria ter mandado mais EPIs, mais medicamentos e uma quantidade maior de teste rápidos. Só conseguimos ter uma boa atuação com os materiais necessários por conta de doações e da campanha que fizemos para apoiar o distrito de saúde da nossa região. O que vimos nesse momento, por mais que tenhamos problemas adversos, é a união. Sabia-se que ia se expandir e não estaríamos preparados. A mortalidade indígena em São Gabriel cresce. No boletim oficial, 12 casos confirmados de mortes por covid, mas já bate o número de 20 óbitos. Às vezes sem o acompanhamento acaba tendo o óbito e a não realização do teste.

Na cultura indígena como está sendo a falta de dar o último adeus aos entes queridos?

É mais cruel da gente lidar porque vai contra um princípio cultural que se tinha. Como os brancos dizem fazer o velório das pessoas e manter essa cerimônia. O óbito é uma forma doída, é cruel aos sentimentos do ser humano, da família, dos amigos e parentes de uma forma muito violenta porque você não vai se despedir. Mudou, mas temos que nos preservar para não se contaminar. São precauções que são tomadas com muita dor por causa da perda.

Qual a sua opinião sobre a MP da Grilagem que passou a tramitar como projeto de lei?

Esse é outro problema com o governo federal que acabamos enfrentando com as medidas, leis e decretos que acabam tentando tirar o proveito de uma situação de pandemia para tentar fazer com que regularize a grilagem, invasão dos territórios, exploração das riquezas minerais e outras coisas. Temos o desafio de lidar como população indígena e a responsabilidade do Estado Brasileiro, através da Presidência da República, de aprovar medidas de combate e melhorias ao enfrentamento da pandemia. Mas que está sendo muito irresponsável com toda essa situação porque acaba contrariando todas as orientações sanitárias e boa parte da população acaba seguindo essas orientações através desses discursos desmiolados do presidente da República. O Estado Brasileiro violando os direitos dos povos indígenas a partir das medidas de exploração mineral, grilagem de terras e querendo revisar demarcações homologadas e mesmo aquelas que já tem um direito constitucional o seu processo legítimo de estudo e estão querendo rever.

O que os povos indígenas defendem?

O que está reconhecido não é um retrocesso, é a garantia de um direito ancestral, cultural, milenar de cada povo que vive em seus aspectos culturais por conta do desenvolvimento que não atingiu a ousadia que a sociedade branca quer.

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Repórter de A Crítica

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